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Opinião

IZARELE

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?Naquela mesa está faltando ele, e a saudade dele está doendo em mim? ? a estrofe da música de Sérgio Bittencourt, composta para Jacó do Bandolim, seu pai, soou na minha memória há poucos dias, quando entrei na sala de jantar da nossa casa em Murici. A mesa ainda está lá, a velha mesa de fórmica branca que sobreviveu a diversas cheias do Mundaú; mas na cabeceira está faltando ela, Izarele de Souza Santos, minha avó materna, sem cuja presença nada faz muito sentido naquele espaço tão sagrado. A gota do que há de bom em mim, no meio do meu imenso oceano de desacertos e imperfeições, devo-a ao que foi semeado em meu coração por dona Izarele. De quando eu nasci, em 1970, até quando ela se foi, em 1982, tive a ventura de ser o destinatário-mor do seu carinho, da sua atenção e do seu amor com tamanha intensidade que, transcorridos quase 34 anos da sua partida, nunca houve um dia em que eu não tenha sentido muita, muita saudade do seu perfume de alfazema e do seu abraço de algodão. Fui o seu primeiro neto. Vim ao mundo quando ela já estava idosa, beirando os setenta anos, e talvez isso explique o tanto de ternura que ela imprimiu em cada momento que partilhamos juntos, fincando na minha alma uma árvore frondosa que até hoje, quando já são muitos os desencantos e as coisas desacreditadas, ainda me serve de amparo e de abrigo. Vovó desdobrou-se para mim o quanto pôde, em mimos e carícias. Nunca dormi sem ouvir o seu ?Deus lhe faça feliz?, e muitas vezes acordei com ela sentada à beira do meu colchão, em silêncio, volvendo para mim os seus olhos rasos d?água. Quando o medo do bicho-papão ou das almas penadas assombrava o meu sono, eu pulava para a sua cama ? dormíamos no mesmo quarto ? e me espremia entre o seu corpanzil e a parede fria, adormecendo ao embalo do seu ronco alto. Ali eu estava seguro, protegido, guardado. O outro nome de minha avó era bondade. A sua pequena aposentadoria de serventuária da Justiça era quase toda dividida com os pobres que iam diariamente à nossa casa e para quem ela sempre preparava um prato bem cheio de comida, além de lhes dar roupas e remédios. Vó Zarele dizia para nunca reclamarmos da vida, para sempre confiarmos na divina providência, para sorrirmos e sermos gratos. Eis o resumo da sua sabedoria e do seu carisma. Com ela eu aprendi que o homem deve ter entusiasmo, fazer bem feito suas obrigações, acreditar nos sonhos que acalenta e lutar obstinadamente para torná-los realidade. As suas lições até hoje me ajudam a caminhar e evitam muitos dos meus tropeços.

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