Opinião
UMA RAPOSA EM MACEI�
A raposa, principal personagem do clássico romance alagoano ?O Ninho das Cobras, do escritor Ledo Ivo, passeia livremente pela ruas da Maceió de outrora, mais especificamente na época do Estado Novo getulista, na primeira metade do século XX. Foi abatida por moradores, ainda no primeiro capítulo do livro, e, mesmo morta, o seu fantasma continua sendo o principal personagem da estória, nos conduzindo pelo fio de uma Maceió esquecida pelo tempo. A raposa, nos dias atuais, não reconheceria as ruas da Maceió de hoje, por onde andou no passado, mas perceberia, com a racionalidade de que lhe dotou o autor, que nada mudou nas profundas contradições sociais da cidade e na qualidade de vida daqueles que a habitam. Apenas nos transformamos num grande centro urbano de contradições. Maceió completou 200 anos de sua fundação em 2015, data esta que revela um equívoco histórico dos que a governam, uma vez que o dia oficial do 05 de dezembro de 1815, remonta apenas ao desmembramento de Maceió da Vila de Santa Madalena da Alagoas do Sul, atual município de Marechal Deodoro, marcando sua ascensão à condição de província e futura promoção a capital do Estado. Já em 1673, a pedido do Rei de Portugal, o Visconde de Barbacena havia construído um forte, onde hoje se situa o bairro de Jaraguá. Maceió só passou a condição de cidade em 09 de dezembro de 1839. Desde esta época, podemos dizer que, em essência, a nossa população continua a conviver com as imensas e duras dificuldades dos tempos idos e vividos. A Maceió dos 200 anos da propaganda oficial da prefeitura, no entanto, revela uma pólis imaginária, que só existe na visão das agências de publicidade. Fica claro, portanto, que os marqueteiros de plantão do atual prefeito construíram uma cidade virtual, uma espécie de Matrix, completamente equidistante do cotidiano dos bairros periféricos da capital alagoana. A Maceió factual é uma cidade dividida por realidades distintas. A figura etérea e fantasmagórica da raposa de Ledo Ivo, no entanto, continua a andar com seu olhar astuto pelas ruas de uma Maceió Partida. Só quando tivermos uma Maceió inteira, para todos, poderemos dizer que a raposa do romance de Ledo Ivo poderá caminhar rumo ao desfecho de uma outra história, onde poderemos ter uma cidade de face mais humanizada, integrada e equilibrada.