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Opinião

SOU DOADOR

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Já avisei, há bastante tempo, aos meus familiares e amigos mais próximos: sou doador de órgãos e tecidos. Quando eu bater as botas, se quiserem me fazer a última vontade aqueles que nutrem por mim algum carinho, cuidem para que esse meu desejo seja cumprido à risca. Rins, coração, fígado, córneas ? tudo o que do meu corpo puder ser aproveitado, que seja extraído sem demora e encaminhado a quantos precisem dele para vencer uma doença grave, substituir um membro falido ou ganhar algum tempo de sobrevida ao lado dos que lhes são caros. O invólucro que me abrigou não será mais necessário para mim, depois de extinto o sopro vital; que sirva, então, para um irmão que ainda tem a sua missão a cumprir nestas paragens. ?Mortalha não tem bolso e caixão não tem gaveta?, dizia sempre Mário Osório lá em Murici. Reter conosco o que não nos pertence mais é apego desarrazoado, que em nada aproveita à nossa evolução espiritual. Sempre considerei absurdo entregar aos vermes, de mão beijada, órgãos que têm melhor serventia do que apodrecer debaixo de sete palmos de terra. Perdi alguns amigos muito jovens ? Júnior, Rogério, tio Jorge ? que bem poderiam ter se transformado, com a sua morte prematura, em alento para famílias inteiras que penam nas longas filas de espera dos transplantes. Se o nosso ?conjunto de vísceras vulgares?, como versejou Augusto dos Anjos, pode minorar sofrimentos e aliviar tantas dores, por que não aproveitarmos essa oportunidade de, com a nossa matéria, fazermos o nosso último gesto de caridade consciente? De minha parte, se não fosse pedir demais à minha mulher e ao meu filho, eu gostaria mesmo era que os meus restos mortais fossem doados a uma faculdade de Medicina qualquer, para servir às aulas práticas de anatomia. Fazia-se o velório, cumpriam-se os rituais de despedida e, ao invés de o corpo ser levado à sepultura, seguiria para as mãos dos alunos, onde talvez fosse útil para ensiná-los a salvar a vida de muitos dos seus semelhantes. Como não me sinto no direito de fazer tal postulação (mas a proposta está lançada, sem pressão alguma!), peço-lhes que ao menos me deem a chance de testemunhar, lá do paraíso celeste onde pretendo habitar, a alegria de quem tiver recebido o meu coração de poeta e sonhador e as minhas córneas prenhes de tanta beleza que me foi dada conhecer. Quem sabe esses agraciados farão uma prece silenciosa pelo meu repouso eterno, entregando a minha alma às mãos amorosas da Virgem Maria? É o que de melhor eu posso almejar, quando tiver empreendido a grande viagem.

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