Opinião
CADERNOS
Em um caderno vazio, cabe qualquer ideia. Diferentemente de um livro, que cisma em prender o escritor a uma história, o caderno é liberdade. Frases, desenhos, gráficos, rabiscos, folhas arrancadas, páginas desprendidas, notas de rodapé. As folhas em branco aceitam tudo. Não foi à toa que alguns livros aparentemente despretensiosos ganharam a admiração dos adolescentes ao dar instruções inusitadas ao leitor para praticar ações curiosas como pisar, jogar café, traçar o percurso de uma formiga... A cada página virada, uma nova instrução inusitada. O sucesso de um livro que ?ensina? o que podemos fazer com um livro revela um pouco sobre nosso ilusório livre-arbítrio. Seria ?liberdade? tudo aquilo que posso fazer? Nesse sentido, a liberdade nada mais é do que uma autocracia da ação. Tentando entender tal ambiguidade, volto ao caderno. As folhas em branco de um caderno não pedem nada. A falta de instrução é angustiante. Estamos obcecados pela rotina em que sabemos tudo que deve ser feito, a hora e lugar que devemos estar e o que faremos em nosso curto tempo livre. Trocamos o caderno pela agenda (afinal, ?agenda? nada mais significa do que ?aquilo que deve ser feito?). Nossas linhas em branco são preenchidas com horários e as dobras que viram as folhas por dias destacáveis que jogamos fora após completar a missão. Não estamos mais conseguindo viver sem algo que nos advirta o que devemos fazer. ?Mas e a conta, vai ser paga sozinha??, ?Sonhar é fácil, a realidade é outra!?, ?Existem pessoas que precisam de mim? são algumas de nossas âncoras para continuar aceitando a programação do jeito que ela foi instaurada. Cada pergunta dessa não deve ser mediocrizada nem descartada. Não rejeito que nossa rotina é essencial, todavia, está obscura demais. Estamos tão acostumados com ordens que não levantamos mais a cabeça para ver quem está mandando. Voltamos à era que usamos nossos cadernos para reproduzir a lousa preenchida por alguém. O poeta Rainer Maria Rilke disse uma vez: ?Se a realidade lhe for pobre, não a culpe: culpe a si mesmo por não ser poeta o suficiente para extrair-lhe suas riquezas?. E qual é a riqueza que estamos conseguindo extrair de nossos dias? O que acaba se tornando memorável a ponto de ser lembrado como algo puramente genuíno de nossos dias adultos? Precisamos resgatar as páginas em branco de nosso caderno, ou rabiscar nossa agenda, antes que toda a tinta que nos reste acabe sendo usada para escrever uma história na qual somos coadjuvantes de nós mesmos.