Opinião
O ELOGIO DA ESPERTEZA
Nesta vida, nem sempre é levado a sério aquele que faz bem feito. Aquele que se esmera na tarefa como se fosse a primeira de sua vida nem sempre é observado, e o tempo de execução ainda o prejudica. O que enrola geralmente é brilhante, consegue, em tempo recorde, fazer muitas tarefas e, mesmo antes de ser reconhecido, está mostrando o que fez. Por isso tem pressa para tudo e, no final, deixa camuflado pelo caminho seu rastro de desleixo, que nem sempre é observado. Trabalhando em banco, conheci um sujeito que passava o dia inteiro na mesa de um e de outro divertindo a todos com piadas, pulhas e sagacidade. Seu trabalho do dia inteiro era engavetado para ser apresentado depois das 16 horas, quando o estabelecimento fechava e a retaguarda ia tratar da contabilidade. Então ele aparecia com um montão de serviço e ficava dizendo: ? ?Desmanche essa briga aqui?, apontando para mesa cheia de papéis. O gerente administrativo o adorava, porque como era o último a sair lhe fazia companhia e ainda completava o serviço com as fofocas do dia. Gente assim vai longe. Esperteza inda maior é a daqueles cujo chefe é seu ídolo. Para estes, não basta agradar, é preciso fazer ainda mais. E a melhor referência que tenho é a história de um sujeito que foi jogar futebol com o chefe que era ruim de bola. Mas ele, disposto a ajudar, driblou o primeiro, o segundo, o terceiro, até chegar à boca da área, quando entregou a bola gritando desesperadamente: ?Faça o gol, doutor!?. E o doutor, como era péssimo mesmo, deu o chute enviesado para fora a uns três metros da trave. A frase famosa se tornou a máxima do puxa-saquismo: ?Faça o gol, doutor!?. Pior ainda é aquele que se faz indispensável. Este é o que vive costurando intrigas, sugerindo situações, delatando e exagerando as dificuldades de cada serviço ao chefe para valorizar os resultados. Nunca está desocupado. Nunca tem tempo para nada. Finge não ouvir o que se passa ao seu redor, mas se mantém aguço a qualquer oposição. É uma sombra traiçoeira e má, pronta para desajudar qualquer um que esteja em seu caminho. Faz isso arguciosamente, pelos subterrâneos da insensatez dos incautos. Por isso olha os outros como se estivesse acima de todos. Talvez por isso seja menos popular e mais temido. É que a trapaça é o combustível de sua alma. Enfim, a esperteza não é para qualquer um, afinal, esse atributo exige do indivíduo a malícia, a deslealdade e a covardia necessárias para viver jocosamente suas relações seletivas.