Opinião
ESCR�PULOS E CONSCI�NCIAS
No dia 20 de junho de 1967 um júri composto por seis homens e seis mulheres, todos brancos, condenou o boxeador Muhammad Ali a cinco anos de prisão e multa de 10 mil dólares por se recusar a lutar no Vietnam: ?não vou percorrer 10 mil km para ajudar a assassinar um país pobre simplesmente para dar continuidade à dominação dos brancos sobre os escravos negros. (...) Eu não tenho problema com os vietnamitas, eles nunca me chamaram de crioulo?, disse Ali para justificar seu gesto. Os Estados Unidos, que não permitiam a convivência entre negros e brancos, estavam em guerra contra o comunismo, e não perdoaram Ali. No dia 13 de dezembro de 1968, em reunião do ministério do general Costa e Silva, foi baixado o AI-5, que mergulhou o Brasil numa cruel ditadura. O então ministro do Trabalho e Previdência Social, Jarbas Passarinho, assim justificou o ato: ?sei que a vossa excelência repugna, como a mim e a todos os membros desse conselho, enveredar pelo caminho da ditadura pura e simples, mas me parece que claramente é esta que está diante de nós. (...) Às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência?. O Brasil estava em luta contra o comunismo. Passarinho e Ali morreram há poucos dias. A história os moldou a partir do escrúpulo; a ausência, no caso do primeiro, a correção, no caso do segundo. Ali foi execrado e impedido de lutar por anos. Passarinho foi redimido e voltou a ser ministro, desta feita ocupando a pasta da Justiça (!!!). Nos dias de hoje, escrúpulo parece ser um termo que entrou em desuso. Em meio a tantos escândalos são poucos os que têm crise de consciência e resolvem fazer o que é certo. Ali e Passarinho, cada um a seu modo, infringiram a lei, mas Ali teve um gesto tão grandioso que o governo americano o homenageou, em 2005, com a medalha presidencial da Liberdade. Passarinho não recebeu honrarias, mas tampouco foi hostilizado. A vida em sociedade nos leva a agir coletivamente, mas os princípios morais e éticos que habitam nossas consciências têm que ser preservados, senão seremos apenas um bando. Ir às ruas apenas pelo fato de que todos estão indo às ruas, mesmo que isso sufoque nosso senso crítico, nos remete a um grau primário de aceitação e covardia. Ousar ser diferente, mantendo nossa vontade e solidariedade, foi o que nos fez evoluir e atingir o grau de civilização que atingimos.