Opinião
PAISAGEM
Sempre estudei pela manhã, na minha infância em Murici, primeiro na Escola Integrada Municipal e depois no Ginásio Nossa Senhora das Graças. Chegava do colégio já perto da hora do almoço, tomava um banho frio, fartava-me com a deliciosa culinária da minha avó Izarele e madornava um pouco, para logo em seguida ir brincar nos estreitos limites da rua 7 de setembro, a menor da minha cidade na década de 70, numa época em que lá ainda não havia assaltos nem balas perdidas. Com Geraldo, filho do seu Horácio da venda, e Dominguinho, afilhado da minha mãe, corríamos no pega e passeávamos de bicicleta, arrastando as sandálias japonesas no chão quente de paralelepípedos. Cavaleiros saíam em disparada da rua da ponte, perseguindo os bois que seguiam para o matadouro, oferecendo-nos certo risco, e os doidinhos de estimação ? todo interior os tem ? conviviam conosco sem nos amedrontar: Criança, Maria Doida, Vigia, João Balaio, Maloqueiro, Zé de Laura. Tupã, o cachorro amarelado de dona Judith Alcântara, perseguia-nos incessantemente, e causou-me uma queda que deixou em meu queixo uma cicatriz que carrego até hoje. Havia árvores na calçada, uma na frente de cada casa, onde à tardinha os passarinhos faziam algazarra antes de partirem para dormir nas frondosas castanheiras da praça da matriz. Mané da Pipoca chegava com o seu carrinho na esquina do colégio, e o cheiro bom do milho na manteiga logo nos atraía, arrancando as poucas moedas que tínhamos nos bolsos e disputando a nossa preferência com o quebra-queixo e o flau ? este último, se congelado e duro, chamado peito-de-moça; se líquido e flácido, peito-de-véia. Caída a noite, a coruja rasga-mortalha voava da torre da igreja para caçar ratazanas e cassacos. Se passasse sobre uma casa, era mau agouro para o proprietário, prenúncio de morte iminente, o que fazia com que nós a espiássemos, apreensivos, enquanto as suas asas brancas cortavam o céu estrelado de verão. Sapos-cururus esgueiravam-se pela sarjeta, prontos para abocanhar o primeiro grilo incauto que aparecesse, e as mariposas bailavam em torno da lâmpada forte do poste da esquina. Em breve estariam mortas, calcinadas na busca pela luz. As mulheres sentavam-se à porta de casa, em tamboretes ou nos batentes, espiando a meninada se divertir e pondo em dia os assuntos domésticos, entre uma e outra fofoca, que ninguém é de ferro. As meninas pulavam elástico e jogavam queimado. Vida que corria simples, leve, tranquila ? ?vida besta?, como a chamou Drummond num de seus poemas. Mas plena de muitos significados.