Opinião
UNIVERSO DE ALAS
Foi uma grata surpresa o que pude apreciar em Alas ? exposição composta por cinco artistas alagoanos, apresentada na galeria Gamma, em Maceió. O modo como os artistas retratam o trabalho é inventivo, cativante e rende alguns questionamentos. Com certeza, uma experiência proveitosa e que, de alguma forma, expande os horizontes no universo das artes. Ao entrar na galeria, um clima intimista toma conta, ao mesmo tempo em que induz às fotografias compostas por curiosas texturas. Seu autor, Felipe Camelo, fez da natureza morta um convite ao surreal, mesclando os tons fortes das frutas que fotografou, sobrepondo-as por redes, dando uma sensação de imersão que prende quem as aprecia. Os desenhos de Léo Villanova, que retratam Maceió em diferentes épocas, causam nostalgia para o que não vivemos. Seu trabalho é dotado de riquíssimos detalhes que, segundo o artista, foi fruto de uma vasta pesquisa sobre a época de cada imagem. Foram entrevistas e pesquisa ao acervo municipal, estadual e até internacional para a produção dos desenhos. Um trabalho que faz ter orgulho de pertencer a cidade. Ao subir as escadas para o andar superior da galeria, as fotografias de Joaquim Prado conseguem proferir um movimento tão harmonioso quanto eufórico as suas imagens. A composição que ele usa pode remeter calmaria, como na curiosa ?O caçador de borboletas?, que utiliza sombras pigmentadas em um ambiente sem luz, dando à fotografia um tom de colagem. Também transmite movimento, quando utiliza a longa exposição como aliada na construção de algo inquieto. O ruído presente nas fotos dá uma sensação de documental, ao mesmo tempo em que remete à poesia da vida noturna. A série Romaria, composta por Roberto Fernandes, traz uma visão singular acerca da fé. Com um trabalho que remete à atmosfera de Sebastião Salgado, Fernandes foca em planos e expressões característicos das romarias brasileiras. Ele consegue nos levar ao mundo de quem tem a fé não apenas como refúgio, mas como forma de vida. Ênio Lins, trazendo ao mundo da arte sua visão do cenário político atual, brinca com cores, texturas e farpas para todos os lados. ?Desordem e progresso?, sem dúvida, é uma das mais interessantes obras da exposição. Com uma representação da bandeira nacional repleta de frases enunciadas nas mais variadas discussões políticas e protestos, além de sua elipse quebrada no chão, Lins ironiza o que o pensamento coletivo vem fazendo com nossa democracia.