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Opinião

UMA CIDADE PARA TODOS

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A socióloga holandesa Saskia Sassen, autora de um clássico, ?A Cidade Global? (1991), esteve há pouco no Brasil ? ela é habituée ? e fez uma afirmação reveladora antes de proferir palestra no seminário ?Cidades e Territórios?: ?as cidades estão na linha de frente da globalização e os prefeitos, independentemente do grau de autonomia e orçamento que têm, encaram problemas antes do que os governos nacionais e são mais rápidos em agir?. Parece óbvio, mas no Brasil de hoje poucos se dão conta disso. A Constituição de 1988 deu autonomia aos municípios e promoveu uma revolução: de repente, o antigo alcaide foi guinado ao posto de administrador-mor, aquele que tem o contato direto com o povo, o responsável por fazer a estrutura que rege sua vida funcionar; afinal, o cidadão não ?reside? no estado, no país, ele mora na cidade. Quer saber do que acontece na sua rua, no seu bairro. Quer saber se tem alguém além dele, se preocupando com isso. Quer respostas rápidas. Curiosa a observação da socióloga sobre a rapidez em agir. Isso foi demonstrado por Jaime Lerner em 1972. Arquiteto, três vezes prefeito de Curitiba e duas vezes governador do Paraná, Lerner inovou a tal ponto que se tornou referência mundial: ?as mudanças têm de ser rápidas. Inovar é começar?, disse ao transformar a rua 15 de novembro em área para pedestres em apenas 72 horas. Causou furor. O automóvel clube, poderoso na época, organizou uma carreata para retomar o local. Lerner, então, adotou uma medida ousada e, ao mesmo tempo, perigosa: cobriu o calçadão com papel e chamou crianças para desenhar. As máquinas dos ricos recuaram. De Lerner para Rui Palmeira, prefeito de Maceió, que a despeito de todas as opiniões contrárias ? os privilegiados acham que só eles devem ter privilégios ? instalou a linha azul ao longo da avenida Fernandes Lima, a mais congestionada de Maceió. Absurdo, disseram. Por que reservar uma faixa só para ônibus? Inquiriram os donos de automóveis que jamais entraram num ônibus. Pois bem, os moradores de bairros distantes, que levavam mais de uma hora para chegar ao Centro, podem fazer o percurso hoje em poucos minutos. Com a medida, ganhou a cidade, ganhou o cidadão. É claro que não se pode agradar a todos ao mesmo tempo ? falo com conhecimento de causa porque fui prefeito de Maceió ?, mas a atitude do prefeito reflete o gesto de alguém que para além do concreto, ou obras imediatistas, está pensando a cidade. Como disse Sassen, um administrador que está na linha de frente. Na obra citada, ela fala também dos conglomerados que invadem a cidade e tornam particulares, espaços que deveriam ser reservados ao público, e afastam o público dos antigos espaços públicos que passam a ser dominados por grupos violentos. Em suma, quanto mais uma cidade se volta para todos, mais ela se torna uma urbe digna de pessoas que possam viver, trabalhar, morar e se divertir, não por acaso o lema de Jaime Lerner.

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