Opinião
Lorde do Brito
Ronald Mendonça * Há um ditado chinês ou árabe que afirma que o homem só consegue fazer bem uma coisa se daí tirar o seu sustento. Como todo bom adágio, sua aplicação depende das circunstâncias e da vontade de quem o emprega. No caso desse (chinês ou árabe, os dois são parelhas), eu o vi num trabalho científico sobre uma nova técnica cirúrgica em que, ao final, o autor advertia sobre a necessidade do rápido aprendizado da tal técnica, caso contrário seria dispensável fazê-lo ?porque outro, certamente, já teria se antecipado?. Como vêem, o decantado ?espírito científico? não só persegue a primazia, mas, também, a exclusividade. De fato, solidariedade e altruísmo são matérias-primas sazonais que, às vezes, parecem palavrões. De uns tempos para cá só quem as empregam são políticos, alguns prelados e a socialite Vera Loyola. Evidente que não dá para esquecer dos milhões que foram às ruas protestar contra a iminente invasão do Iraque pelo desajuizado Bush & Cia. Foi uma mobilização importante que demonstra que ainda resta um quê de sensatez nesse mundo - sem porteiro e sem vigia - e que, talvez, os nossos filhos e netos não estejam inapelavelmente condenados a um sem-futuro. Acho que foi pensando nisso que um obstinado alagoano iniciou, há 6 anos, uma caminhada solitária criando a instigante ?Casa da Palavra?. Fisicamente, a ?Casa? faz parte de um conjunto arquitetônico imperial conhecido como ?Casarões da Ladeira do Brito?, inteligentemente adaptado às finalidades idealizadas pelo seu criador, Lorde Ricardo Nogueira Bezerra. Internamente, o bom gosto e a funcionalidade surpreendem e encantam. O irrequieto cavalheiro já projeta a construção de um teatro para 500 lugares. Nogueira desafia a máxima chinesa fazendo bem feito de onde não tira o sustento. Pés no chão, orgulha-se pelo pioneirismo da iniciativa, sem, contudo, pleitear reserva de mercado. É chover no molhado repetir que Ricardo Nogueira é um revolucionário. Médico e professor ultraqualificado fugiu da tentação de edificar uma bela clínica e usufruir dos aluguéis. Também, em boa hora, não se aventurou a construir um hospital para ser humilhado e viver mendigando a um certo SUS. Monumento dedicado às artes, à cultura e à ciência, sem esquecer dos que alavancam o desenvolvimento do Estado, a Casa da Palavra comemorou o 6o ano ao feitio do seu fundador : com engenho e humor, e aproveitou para homenagear pessoas e empresas que se destacaram em 2002. Dezoito de fevereiro teve, assim, uma noite quase perfeita. A falha ficou por conta da indulgência do amigo Ricardo em enxergar alguma virtude nesse misto frio de médico e comentarista, alçando-o à condição de homenageado. Fraquezas da carne... (*) é médico e professor da Ufal