Opinião
As duas Inglaterras
O resultado do referendo britânico sobre a permanência (Brestay) ou saída (Brexit) do Reino Unido da União Europeia provocou choque no mundo com a vitória da campanha pela saída, que conquistou 52% dos votos (17,4 milhões contra 16,1 milhões), contrariando as pesquisas de boca de urna. A decisão ? que provocou queda das principais bolsas de valores do mundo ? realça as fragilidades e incertezas do projeto europeu. A votação acabou revelando a existência de duas Inglaterras. Enquanto a capital, Londres, votou pela permanência, a maioria das outras cidades votou pela saída. Além disso, a diferença entre as gerações também ficou clara. O retrato demográfico dos votos no referendo para a saída do Reino Unido da UE mostra claramente que a ?velha Inglaterra? foi decisiva no resultado conservador do pleito. No grupo entre 18 e 24 anos, 64% disseram ter votado pela permanência, escolha de apenas 33% dos britânicos entre 50 e 64 anos. Ao observar o comportamento eleitoral do referendo, o perfil do eleitor britânico favorável à saída da UE ficou bem definido: inglês, idoso, interiorano e pouco cosmopolita. A divisão dos britânicos em relação à adesão à UE manteve-se relativamente equilibrada durante meses. Os chamados ?eurocéticos? ? contrários à participação do Reino Unido na EU ? enquadraram o debate em termos de soberania, controle das fronteiras e, especialmente, imigração. Aliás, o debate sobre a imigração foi um dos que mais geraram controvérsias. Muitos dos opositores da imigração acreditam que abandonar a UE deixaria o país livre para diminuir a entrada de imigrantes. O Reino Unido aderiu à Comunidade Europeia em 1973, mas, suportado na força da libra, sempre se recusou a adotar a moeda única europeia, o euro. Depois de 43 anos de integração regional, o país deverá, nos próximos meses, aplicar o artigo 50º do Tratado de Lisboa, que estipula as regras de saída de um Estado-membro e que nunca foi utilizado. Muitos já preveem o fim do bloco criado para fomentar a paz e a cooperação entre as nações do continente europeu, depois de séculos de conflitos. A única certeza, porém, é que a pressão para a realização de referendos em outros países europeus vai aumentar. Os efeitos da decisão dos britânicos ainda não estão muito claros. Só o tempo dirá.