Opinião
DE RA�ZES E COPAS
Havia poucas árvores no quintal da minha infância, um pequeno quintal enladeirado que descia para a beira do Mundaú, da qual se separava por uma velha cerca de madeira maltratada pela passagem do tempo e pelas cheias do rio. Naquele terreno íngreme e malcuidado vicejavam apenas um mamoeiro ? que depois foi sacrificado por estar derrubando o muro lateral ?, dois coqueiros e um pé de carambola, este oriundo de uma muda trazida da casa do meu avô Zezinho e que dava frutos suculentos e doces. No mais, eram somente algumas plantas rasteiras, como as hortelãs miúdas com as quais minha avó Izarele fazia lambedor, as vassourinhas com que Dolores me curava do mau-olhado e as touceiras de mastruz que, misturado ao leite, foi o pior remédio que eu tomei quando menino. Mas ali, mesmo com aquelas poucas opções, eu comecei a gostar do reino vegetal, foi lá que eu aprendi a me sentir bem entre folhas e flores, inundando as minhas narinas com o cheiro de terra molhada nas noites de invernia. Desde então, jamais me desapartei do convívio próximo com esses seres vivos que, malgrado mudos e fincados no mesmo lugar por toda a sua longa existência, dão-nos lições permanentes de sabedoria, força e resistência. Basta que nos disponhamos a olhar com atenção e cuidado para o que eles fazem em nosso meio. As árvores saem das profundezas da terra e crescem continuamente em direção ao alto, raízes e copas fazendo o mesmo esforço em busca do sol. Linda essa definição de Raul Cânovas, paisagista e escritor: ?As raízes são como nossa alma: existem, mas você não vê. Estão ligadas ao âmago, ao passado, aos nossos ancestrais. Já o tronco é a parte palpável da árvore, equivalente ao corpo, o tempo presente, o concreto. E a copa é o nosso anseio de atingir o divino, aquilo que se alça para cima, o futuro ? a parte mais espiritual?. Quem foi criança no interior, como eu, sabe bem a sensação de liberdade trazida pelo balanço pendurado num galho forte da árvore, a refrescância das tardes passadas em seu redor, a proteção nos dias chuvosos e tristes. É nelas que ficam os ninhos onde a passarada se reproduz, os troncos onde se apoiam as lagartas que, tornadas crisálidas, logo riscarão o céu como graciosas borboletas. Imponentes, resistentes, sólidas, as árvores são o maior símbolo da vida universal. Transformam gás carbônico em oxigênio, fornecem alimento e abrigo, ensinam como manter uma postura de equilíbrio até nas adversidades. E quando caem, caem eretas, sem se vergar. Um grande exemplo para todos nós.