Opinião
INVERS�O DE VALORES
Em março de 1964, quando as forças armadas tomaram as ruas das principais cidades brasileiras e anunciaram a fatídica revolução, eu estudava no Colégio Diocesano de Garanhuns, uma das instituições de ensino mais respeitadas do Nordeste, no seu tempo. À época, era dirigido pelo não menos revolucionário Mons. Adelmar, um educador austero, disciplinado, comprometido com o seu mister de transformar jovens discentes em homens do futuro. Invariavelmente, todos os dias, antes do início das aulas, o alunado se reunia às 7 da manhã no auditório para uma palestra de vinte minutos ministrada pelo seu diretor. Mons. Adelmar não era um simples professor. Aliás, nem lembro se ele ensinava alguma matéria para as séries do ginásio e científico de então. O religioso foi, acima de tudo, um educador, um encantador de estudantes que, durante aquele tempo, disciplinadamente ouviam atentos as sábias palavras do mestre. Diferentemente do professor que transmite conhecimentos, aquele padre cotidianamente desempenhava uma missão marcante na formação dos meninos como eu que estudavam no colégio por ele dirigido. A educação como um todo do ser humano e sua interação com a família e a sociedade era um dos temas prediletos. Mons. Adelmar nos ensinava tudo, da higiene matinal até as questões éticas e conduta moral, os caminhos verdadeiramente moldados para a realização de um ideal de vida. Tenho a mais absoluta convicção de que, como eu, muitos dos colegas e tantos outros que tiveram a feliz oportunidade de ouvir o educador diariamente naquele auditório, assimilaram lições jamais esquecidas ao longo do tempo. Ensinava que a honestidade era princípio básico do cidadão incondicionalmente obediente às regras morais existentes. A propósito, honestidade a gente já aprende em casa com os bons exemplos da família. É assim que funciona. Lá no seu lugar do descanso eterno, o monsenhor deve estar horrorizado ao captar as notícias que circulam no além reportando um país inteiro cercado de desonestidade por todos os lados. Um país onde é motivo de espanto quando se diz que determinada pessoa é honesta. Inacreditável inversão de valores! A impressão que se tem nesses novos tempos é que existe uma completa deturpação do conceito de honestidade e o indivíduo que a pratica é visto por alguns como ?careta? ou é até taxado de otário. Raros exemplos como o do seu Antônio Prado, aposentado, catador de papelão em Iporã (PR) que encontrou 50 mil reais e procurou o dono do dinheiro para devolver através de uma rádio; do faxineiro Francisco Basílio que devolveu uma maleta cheia de dólares encontrada no aeroporto de Brasília. Um casal de Mato Grosso do Sul, Marcos Vinícius e Angélica Jacob, desejava adquirir uma câmara fotográfica aquática para curtir férias em Alagoas, mas não tinha o dinheiro suficiente para comprar. Por ironia do destino, no fundo do mar de Maragogi, encontraram, num mergulho, o seu sonho de consumo. A atitude do casal foi de uma honestidade rara! Via redes sociais, procurou até achar, nos EUA, o verdadeiro dono do objeto.