Opinião
MINHAS INESQUEC�VEIS BONECAS DE PANO
Estas palavras já estavam registradas na minha mente, quando leio na Revista Maré, que acompanha a Gazeta aos domingos, o artigo Mãos à obra, antecipando o tema que pretendia dissertar. Tudo concorreu para certificar-me mais ainda que a vida é uma eterna cópia, nunca seremos depositários únicos de um mesmo objetivo, pensamentos, realizações, alegrias e tristezas. O sucesso e insucesso ronda cada um de nós, aguardando a oportunidade para um aconchego ou desprezo, dependendo da forma como encaramos os moldes onde estamos inseridos. As lembranças ressurgiram em cadeia fazendo-me retornar ao passado, àquele casarão cheio de algazarra onde vivi. É inevitável o pulsar das veias daqueles que respiram poesia. Pareceu-me embalar novamente num fugaz entretenimento aquelas ?bruxas? mal confeccionadas, compradas no meio da feira livre, despejadas em balaios, sem separações dos membros, sem a evidência dos órgãos dos sentidos, delineados apenas por um risco feito de linha, nas cores preta ou marrom escuro. Senti saudades de cada uma, desejo de colocá-las outra vez nos meus braços, chorar quando não as podia conduzir para os lugares onde me levavam. Enchi-me dos mesmos sentimentos de antigamente, quando os meus irmãos as apelidava, jogava-as no chão ou as escondia num recanto qualquer, onde as buscávamos em vão e eles admitiam sistema de resgates, permutas, envolvendo ou não moedas insignificantes ou simplesmente um carinho, para fazê-las retornar aos nossos braços! Como chorávamos minhas irmãs e eu, enquanto aturávamos as gargalhadas dos presentes, ao reaparecerem sujas, enlameadas ou se as perdíamos para sempre, partiam, misturadas no tonel de lixo coletado diariamente, para ser jogado em algum buraco no quintal ou distante dali. Não imagino quantas adotei, é inegável que as amei sem descriminação, embalei-as com ternura, numa doce ficção que alentou toda a minha infância. Dialogava com cada uma como se vidas tivessem, mas nunca as suas vozes se fizeram ouvir, nem nos meus sonhos, nem nas palavras que escrevia desde aquela época, verdadeiras declarações de amor àquelas filhas decepadas, feias, sem encanto algum. No momento, conservo ao meu lado bonecas de verdade, as minhas netas Mariana e Ellen, minhas sobrinhas e suas filhas. Em compensação, refúgio e fantasia, ainda descansam aqui, no sofá ao lado, duas beldades de pano representando aquelas que o tempo estraçalhou. Como disse Fernando Pessoa: ?As coisas não valem pelo tempo que duram, mas pela intensidade com que são vividas!? Eu vivi e era feliz!