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Opinião

ROSTOS ETERNIZADOS

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Desde pequeno gosto de retratos. Nos livros de história, detinha-me sempre nas imagens de Dom Pedro II, com suas longas barbas brancas e de Tiradentes, com a túnica alva e a corda já amarrada ao pescoço. Ficava analisando-lhes principalmente a expressão do olhar, tentando imaginar o que lhes ia na alma no momento em que haviam sido capturados para a eternidade. Porque a fotografia tem essa capacidade mágica de congelar no tempo coisas, pessoas e momentos que, mesmo deixando de existir, sobrevivem em nós a cada vez que a sua lembrança nos é provocada. À medida que fui crescendo, fui gostando mais ainda dos retratos de pessoas conhecidas, familiares, amigos, escritores da minha predileção. Tenho diversos álbuns de fotografias, não aprecio guardá-las somente nos meios virtuais da atualidade; é-me prazeroso tê-las impressas, para que eu as folheie quando quero matar um pouco a saudade dos que já partiram ou quando necessito relembrar-me do menino que um dia eu fui, olhar de novo o meu rosto antigo que se perdeu numa rua qualquer de Murici. É quando Mauro Mota vem a minha mente: ?O retrato vive na minha sala muito mais vivo do que eu mesmo porque é o que fui?. Os da minha infância, de calça curta e pernas finas, parecem chamar-me de volta àqueles tempos, e não são somente imagem: possuem sons, cheiros e sabores. Quando morre um parente da minha mãe e os de sua casa vão arrumar os pertences do extinto, geralmente separam as fotos e mandam para mim. Foi assim que consegui ter comigo o meu bisavô José Lino de Souza e o seu filho Jônathas, dentre outros tantos tios e primos cujos nomes até hoje são lembrados nas conversas em família. É interessante observar características físicas que reaparecem três ou quatro gerações depois, uma certa expressão do olhar, um sinal no rosto, um jeito de pentear a cabeleira. Eu mesmo me acho muito mais Souza, ramo da minha mãe, do que Tenório, do lado do meu pai, tanto fisicamente quanto no que me vai na alma. E os retratos antigos ajudam a compor esse mosaico de personalidades díspares que se abriga em cada família e que se perpetua no papel que desafia o tempo. O meu Luís, por exemplo, tem os lábios carnudos do bisavô paterno Apolinário, salvos do esquecimento na única imagem que dele restou, datada de 1932. Nos álbuns, nos porta-retratos ou nas paredes, os rostos dos nossos idos continuam a nos falar em silêncio. Por vezes nos repreendem, noutras nos elogiam, em certas horas parecem até rir conosco no meio de alguma conversa. Ao seu modo, permanecem vivos.

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