Opinião
A carro�a
DOM FERNANDO IÓRIO * Há pessoas ? e não são poucas ? que têm o prazer de atravessar conversas nos grupos dos parecidos ou dessemelhantes. São pessoas que interrompem as conversas alheias, procurando tornar-se o centro das atenções. Talvez o façam por extroversão temperamental ou mesmo por hábito, por falta de cortesia, por necessidade de aparecer. Gesticulam, alteiam a voz, acham-se as únicas nas rodas sociais. Contou-me um dos amigos, entre tantos que possuo, as preocupações que tinha seu pai, quando ele e seus irmãos eram pequenos. Consistia ? afirmava-me ele ? em que cada um dos filhos compreendesse o quanto era importante a cortesia na vida. Por várias vezes, percebi o quanto lhe desagradava o hábito de certas pessoas interromperem a conversa de quem estava expondo o seu pensamento, num círculo de amigos. Eu não nego ? falava-me o amigo ? das vezes quantas incidi nesse erro. Embora visivelmente aborrecido, nunca me advertia na hora, nem ralhava comigo, o que me surpreendia bastante. Certa manhã, convidou-me meu pai a ir com ele até o bosque para ouvir o trilar dos passarinhos. Com intensa alegria concordei e fomos juntos, umedecendo nossos calçados com o orvalho da relva. Deteve-se ele em uma clareira e, após dois ou três minutos de silêncio, perguntou-me: Está você ouvindo alguma coisa, além do canto dos pássaros? Atentei os meus ouvidos e lhe respondi: - Estou ouvindo o barulho de uma carroça que deve estar andando pela estrada. Isso mesmo, disse-me ele. Trata-se de uma carroça vazia. De logo, perguntei a meu pai, cheio de admiração: - Como pode o senhor saber que ela está vazia? ? Ora, é muito fácil saber. Sabe por quê? ? Não, meu pai. Fitou-me no fundo dos olhos, colocando a mão sobre meus ombros: Por causa do barulho que faz. Quanto mais vazia está a carroça, mais barulho faz. Nada mais me adiantou, deu-me, porém, muito em que pensar. Sou, agora, maduro na vida e, ainda hoje, quando vejo uma pessoa tagarela e inoportuna, interrompendo, com intempestível barulho, a conversa dos circunstantes, e quando eu mesmo me vejo prestes a fazer o mesmo, tenho a impressão de estar ouvindo a voz de meu pai ecoando na clareira do bosque, sempre a ensinar-me: ?Quanto mais vazia a carroça, maior é o barulho que faz?. (*) É BISPO DE PALMEIRA DOS ÍNDIOS