Opinião
O SABOR AMARGO DA CRISE
Cheguei para a Chama Publicidade em 1980 com o investimento, resultado da venda de um automóvel, modelo 1978, e o meu sócio com recursos advindos também da venda de um terreno pelas bandas da Barra de Santo Antônio. Nem precisava lembrar que fiquei por um bom tempo andando de táxi ou ?busão?. E como valeu a pena! A empresa foi fundada em 1976, portanto, quarentona, mas o controle de cotas societárias só seis anos depois seria por nós assumido definitivamente. Durante o período de atividade, a agência viveu muitos momentos de repetidas crises na economia brasileira, planos econômicos, inflação galopante, desabastecimento, poupança confiscada e desemprego. Entre altos e baixos, o alívio só veio a partir de 1994 com o Plano Real. Daí pra frente, a história mais recente todos conhecemos. Durante os vários períodos de crise nos séculos 20 e 21, a publicidade inspirou frases de efeito construídas por grandes nomes do negócio que marcaram épocas e continuam atuais: ?A crise é a mãe da criatividade? (Mena Barreto), anos 1970; ?Enquanto eles choram, eu vendo lenço? (Nizan Guanaes), anos 1980; a fábula do bem-sucedido vendedor de cachorro quente à beira da estrada, que, de tanto ouvir o seu filho doutor falar em crise entrou em depressão e perdeu toda a freguesia. Preocupado com a história da crise parou de investir no seu pequeno e lucrativo negócio e quebrou. Crises e dificuldades fazem parte das nossas vidas. Podem ser financeira, na saúde, trabalho, no amor e familiar. Quem ainda não viveu momentos tensos, preocupantes e olhou para um lado e outro sem vislumbrar uma saída sequer? Internamente, na agência, meus irrequietos sócios estão sempre procurando encontrar soluções para encarar o gosto amargo da crise sem pessimismo, com coragem e altivez. Em recente brainstorming entendi que algumas das questões levantadas podem ser divididas com outros colegas da propaganda, e por que não com lideranças empresariais do mercado em todos os segmentos. Questionamentos do tipo: ?Se no início do ano a meta era empatar, porque agora não conseguimos conviver com isso? Se estamos desanimados, tristes, a energia tá ruim, mudemos pequenas coisas; acreditamos no nosso negócio da forma como fazemos ou algo precisa ser mudado? Se fizéssemos aquilo que nunca fizemos? Se sozinho não conseguimos virar o jogo, quem poderá nos ajudar? Quantas horas dedicamos a pensar em soluções para crise? O que estamos fazendo de diferente para mudar a situação? Se a comunicação funciona, por que não a usamos em causa própria? Falamos em unir criatividade e resultado: só vale para o outros? Somos líderes, somos vanguarda, se temos isso dentro da gente, vamos continuar parados?? Essa discussão grupal em geral é capaz integrar pessoas, aprimorar ideias e até de mudar a cultura conceitual conservadora que normalmente não temos a ousadia de alterar. Em tempos de dificuldades, o debate motiva e promove troca de conhecimentos. Mas nem sempre é inevitável o dissabor de cortar na própria carne para dar folego à empresa.