Opinião
TEORIA DOS JUROS
Estamos acostumados a frequentar o lado negro das estatísticas mundiais, como de criminalidade e corrupção. Em apenas uma delas, contudo, somos os campeões. Os juros mais altos do mundo atravancam nosso desenvolvimento e, de certa forma, nos definem como nação. Suas causas são altamente discutíveis e suas soluções altamente especulativas. Nesse rio de incertezas, duas explicações clássicas correm paralelas como o rio Negro e o Solimões, acompanhando a trajetória do atraso nacional. Os economistas ortodoxos creditam a alta taxa de juros a conjunturas macro e microeconômica que levariam a um ambiente de inflação permanentemente pressionada para cima. É como se nossos preços fossem um magma sob constante pressão. A taxa de juros seria uma crosta, grossa o suficiente para evitar a ebulição. Sob essa óptica, acusada de cientificista, a inflação e os juros só baixarão quando o Brasil se endireitar. Traduzindo, a solução é reduzir o gasto público. Já para os economistas heterodoxos é justamente o oposto. O caminho para consertar o País passa primeiro pela escolha política de baixar os juros. A causa da manutenção de taxas tão elevadas seria a altíssima lucratividade do setor bancário que, sendo grande doador de campanhas, atuaria nos bastidores para manter o status quo. Essa hipótese sofreu grande baque no governo Dilma, quando a então presidente, economista progressista de formação, baixou ?na marra? a taxa de juros quase pela metade. A inflação que estava controlada começou a subir e a taxa foi seguindo-a sorrateiramente, terminando mais altas do que antes. Muitos esperaram toda a vida, e o governo Lula, para ver o plano em prática e ainda se recusam a aceitar que ele falhou. Não custa lembrar que os mais poderosos conglomerados bancários do mundo estão em países com taxas de juros perto de zero. Temos agora novamente um ortodoxo no Ministério da Fazenda, Levy era só um figurante. Passamos pela pior crise da história, o que significa pressão inflacionária em queda (os números já começam a aparecer) e necessidade de crescimento premente. É a conjuntura perfeita para os juros baixarem. Se isso não acontecer, a teoria conservadora pode ocupar a sepultura vaga ao lado da teoria conspiratória progressista. A teoria dos juros no Brasil talvez finde como o São Francisco, cujo futuro anuncia um rio seco, com ribeirinhos desnorteados e incrédulos.