Opinião
DI�LOGO HIST�RICO EM PARIS
Memoráveis encontros realizados entre renomados escritores e poetas se fixam na alma do tempo e marcam os grandes diálogos da literatura universal. Um exemplo, representou a entrevista mantida pelo festejado escritor peruano Mario Vargas Llosa com o célebre poeta chileno Pablo Neruda, numa bela manhã de outono, em 1965, na cidade de Paris, capital da França. Pablo Neruda, no ambiente do Hotel Mont Blanc, na estreita rua Huchett, próximo das portas do Chez Popaul, fez inicialmente uma confissão ? nos seus poemas sempre apareceria alguma costela de Paris, algum osso e alguma flor francesa. Declarou que sempre viveu impregnado de amor pela França. Passeia pelas mesmas ruas, anda pelas mesmas margens do Sena, aprecia os livros e os ?bouquinistes? que não têm segredos para ele há muito tempo. Durante esse sentimental itinerário, aproveita sempre para rever velhos e bons amigos e, alguns novos; levando, de um certo modo, um pouco a vida de um Paysan de Paris, título de um famoso livro de Aragon. Vargas Llosa lhe pergunta qual conselho daria a um jovem poeta? ?Eu lhe diria que continuasse escrevendo sempre versos para sua namorada. Acredito que deve começar a poesia pelo amor, possivelmente também por onde se deve terminá-la.? Após alguns assuntos abordados, Pablo Neruda respondeu assim a derradeira pergunta ? Quais os cinco livros que levaria para uma ilha deserta? ? Não pense que sou egoísta, levaria cinco livros em branco para escrevê-los na ilha. Na despedida do encontro, já nos estúdios da Rádio-Televisão Francesa, Pablo Neruda ofertou um livro de sua autoria, denominado ?Cem Sonetos de Amor?, ao ilustre amigo Mario Vargas Llosa, acompanhado de uma recomendação, de ler os poemas, diariamente, em voz alta, para sua amada esposa Patrícia. Depois, ao escrever acerca do diálogo, Vargas Llosa afirma para seus leitores que, em todos os ramos da criação artística, a genialidade seria uma anomalia inexplicável. Na poesia, um dom estranho, quase inumano, tendo de se buscar, para qualificá-lo, os velhos e maltratados adjetivos: transcendente, milagroso e divino. Os amantes das letras e mestres da inspiração cultivam com extremo carinho a história de seus sentimentos e buscam celebrar os mágicos instantes, porque vivenciam com intensidade a linguagem profunda do amor.