Opinião
AINDA DIRCEU FALC�O: UMA ESCOLA FORA DA ESCOLA
Há mais de duas décadas Dirceu Falcão nos deixou e continua vivo, nos médicos, a quem ensinou. O ínclito cirurgião alagoano, entupido de inteligência e gosto de ensinar. No trabalho, infatigável! E na alegria, boêmio desbragado. Só Pereira, como acadêmico, desafiou-o: ? nunca fique numa porta, dizia! Certa vez, estava recostado num portal. Lá vem Jorge, transportando uma maca vazia. Jogou-a em Dirceu: ? quer, quer isso?!, Jorge, incontinenti: ? sigo suas ordens!, ele se derramou em abrida alegria! Na Casa de Saúde Neves Pinto, no centro de Maceió, à Rua Boa Vista, vizinha ao Jornal de Alagoas, de tudo aprendíamos: classificar sangue, transportar doentes à sala cirúrgica, registrar os procedimentos na ?Bíblia?, semelhante a livro de tabelião. Também técnica cirúrgica e ciência médica. Às sextas-feiras, uma reunião científica coroava o dia. Ele tornou-se personalidade nacional e internacional da cirurgia. Recomendava, leiam Descartes ? o discurso do método ?, para aferirem o significado da metodização em cirurgia. Também Moliére, Keats, Rabelais, Camões,Dostoiévski! Dirceu antecipou-se à cirurgia videolaparoscópica, porque operava vesícula pelo lado esquerdo do paciente como a cirurgia laparoscópica hoje. Nunca deixou de pensar e fazer primeiro para o doente, confessou: ? quantas vezes fico pensando qual melhor técnica a ser aplicada? Só na condição de cirurgião, entendi o significado. Coordenou o curso de Mestrado em Cirurgia Abdominal da Universidade Federal de Pernambuco e aqui editou os Anais da Clínica, com relatórios do que foi realizado no hospital, com os erros e acertos. Tarefa hoje facilmente feita pelos computadores, mas muitos Serviços ainda não conseguem mensurar sua qualidade. Foi citado em trabalho científico na Rússia. Num tempo sem internet,era ter alcançado muito. A sobra de inteligência em Dirceu, tornou-o polêmico e nunca conseguiu ser professor de uma escola médica do Estado, frustração jamais superada. Então, transformou sua casa de saúde numa Escola fora da Escola, tendo influenciado várias gerações de médicos alagoanos, oriundos da Ufal e da Escola de Ciências Médicas. Seus pecados,deixo aos inimigos,que cuidarão melhor que eu, aluno reverenciador, de sua destreza cirúrgica. Dirceu, ainda está aqui, em seus acadêmicos, hoje, cirurgiões, médicos e professores de medicina, dos quais sou um, repetido em seus gestos, saberes cirúrgicos, aforismos, ditames irônicos, sarcásticos e plenos de inteligência a se derramar nos novos médicos pela Escola Médica que formou: uma Escola fora da Escola! Em Sartre, o homem é um compromisso, é o que ele mesmo faz de si, um ser para o futuro, um projeto. É o que Dirceu foi: uma Escola de medicina fora das Escolas de medicina!