Opinião
COMIGO
Trago comigo o que foi plantado em minha alma às margens do rio Mundaú, por entre canaviais onde o sol se punha tingindo de vermelho um céu radioso, com poucas nuvens e plenamente azul. O verde que se aninhou naquele tempo em minhas retinas fez surgir em meu coração uma esperança que nunca morre, e retempera em mim a crença de que é preciso seguir avante, sempre e sem parar, mesmo que no caminho existam pedregulhos que nos machucam os pés e crateras que retardam os nossos passos. Não há tempo para enxugar as lágrimas nem lamentar as perdas, para o repouso ou a trégua. Ir, eis a ordem. No colo materno aprendi a ver a sabedoria escondida na simplicidade e na prudência, a palavra poupada quando se fazia desnecessária. Nos braços de uma avó toda ternura testemunhei a bondade traduzida em gestos concretos, as portas sempre abertas para os desvalidos, a mesa sempre posta para servir aos famintos, o ouvido sempre disponível para as queixas e os lamentos. Com um vizinho generoso testemunhei o milagre cotidiano da multiplicação dos pães a encher a barriga da sua grande parentela rural. Não recebi lições de força física, sequer me ensinaram a briga ou a disputa. Mostraram-me pardais na goiabeira e as corujas que saíam da torre da igreja, mal a noite se anunciava, sobrevoando as nossas casas com o seu voo pontual. Fizeram-me ouvir xexéus no meio da manhã, e galos apressados que cantavam antes mesmo de o dia raiar. Tomei banho de chuva em tardes de inverno, ao som de cigarras que faziam algazarra nas castanheiras da praça da matriz. Joguei ximbra, rodei pião, fiz guerra de mamonas lançadas de estilingue ? que para nós era peteca. Cantei benditos marianos no mês de maio, entoei a ladainha de Santo Antônio em junho e toquei matraca na sexta-feira da Paixão, os sinos silenciados em respeito ao sofrimento e morte do Redentor. Corri de bicicleta ladeira abaixo, pulei de pés descalços em poças de lama e sarjetas transbordantes. Apontei estrelas sob o risco de verrugas no indicador, gesto ousadíssimo para a minha pouca coragem infantil. Tive pesadelos com o corre-bicho e com o papa-figo, fugi com medo do João Balaio, da Criança e da Maria Doida. No ofício de coroinha criei intimidade com o sagrado e me afeiçoei ao silêncio, entre altares e castiçais. Semeei sonhos que nunca viraram realidade, enquanto cruzes de cemitério foram aos poucos tomando o lugar de muitos rostos amigos. Faço meus os versos de Lêdo Ivo: ?Só vou levando o meu nada./Foi tudo quanto juntei/ para oferecer a Deus/ nesta branca madrugada.?