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Opinião

MINHA TR�PLICE NATURALIDADE

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Digo que tenho tríplice naturalidade. Meu berço de nascimento foi a cidade que tem alta temperatura de hospitalidade e beleza, encravada entre serras do Sertão, margeada pelo mágico e sedutor Velho Chico. Pão de Açúcar abriga o descanso eterno dos meus avós, tios e outros familiares do passado. Foi onde vivi os prazeres da liberdade de ser menino subindo e descendo as escadas do coreto da praça da matriz para brincar de quatro cantos. Nos tempos de enchente arriscava pescar piaba quando o rio desaguava na lagoa que transbordava. Desafiava a subida do Morro do Cavalete para contemplar a correnteza das águas do São Francisco protegido pelos braços estendidos do Cristo Redentor esculpido pelo talento do artista João Lisboa. Iniciei a alfabetização sob a batuta da professora Francelina, carinhosamente chamada de D. Mindoca, Rua Padre Soares Pinto. Em Palmeira dos Índios, já próximo do florescer da adolescência, fui fisgado pelo friozinho de 16 graus no inverno e pelo apito romântico da Maria Fumaça nas madrugadas. O silêncio só era quebrado pelas batidas estrondosas do encarrilhamento dos carros puxados pelo trem preparando a próxima partida no dia seguinte. À noite pelas ruas, não temia os vultos encapotados dos homens da milícia que ?guardavam? a cidade comandados pelo Coronel Robson Mendes, então prefeito. Às vezes, sorrateiramente abria o basculante da janela do quarto e na penumbra da praça mal iluminada, via os mal encarados abraçados às suas metralhadoras como se fossem amantes inseparáveis. Parece que faziam juras de amor para aquelas máquinas assassinas e até desejavam com elas fazer sexo! Na Princesa do Sertão fiz meu primeiro vestibular, o curso de admissão ao ginásio para o Colégio Pio XII sob a orientação da magnífica educadora Lourdes Monteiro. Hoje, com mais de 90 anos e uma vida dedicada ao magistério, foi responsável pela criação da Fundanor ? Fundação de Amparo ao Menor. Tirou menores abandonados das ladeiras, calçadas e becos para lhes dar educação e oportunidade de viver e aprender a ser gente. Muitos moleques se transformaram em homens produtivos e trabalhadores. Praticamente sozinha, realizou uma obra social que gestores municipais são incapazes fazer. Lourdes Monteiro ? na Fundanor, e Rosa Fernandes ? na Apala, são pessoas que eternamente haverão de merecer reverências da sociedade alagoana. São especiais só pelo fato de existirem! Lá em Palmeira, sob o esplendor da luz perpétua, repousam para a eternidade meus pais, a irmã mais velha e o meu inesquecível tio Monsenhor Odilon. Em Maceió, cheguei, apaixonei, fiquei; aqui sou feliz e aqui será minha eterna morada. Preparo-me para comemorar meio século de adoção por essa maravilha. Muitas histórias para contar, muitos caminhos percorridos apesar da timidez e a inexperiência do jovem matuto de 20 anos que nunca temeu desafios. Ao completar 66, posso afirmar que cultivo lembranças imorredouras, amigos e amigos que se foram.

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