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Opinião

DO DESPREZO

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Pouquíssimo utilizada, a palavra ?desprezador? é tão estranha, que mesmo como adjetivo exerce um papel de substantivo como se fosse um ofício. O desprezador pode não agir continuadamente, como numa profissão, no entanto, sua ação: o desprezo, este possui o mesmo efeito da morte. Por isso desprezar é, antes de tudo, ignorar ou não enxergar o outro como um ser vivo. O desprezo anula a proposição cartesiana de que ?pensar é existir?. Na dialética da existência humana não é a reflexão, sobre si mesmo, a gênese dessa existência. O desprezo é a pena de solidão ao ser humano. O indivíduo, por opção, pode se isolar, mas se não for desprezado pela sociedade ele continuará a existir. Não é a prisão nem o degredo que justificam o desprezo como pena. Porque até mesmo a morte é ainda menos representativa que o desprezo. Conviver com o desprezo de outrem é como viver num bastião uma guerra que nunca acaba. Não há bandeira branca nem pacto algum de paz. O desprezado se torna um fantasma. Mais ainda, se o desprezo cresce, exponencialmente, na sociedade em que vive. Nem todo desprezo tem causa. Às vezes o desprezo é uma forma de manter a hegemonia. Isto é comum na política, nas ciências, na cultura e nas artes e em muitas outras áreas dominada pela paixão e pela ambição. Leonardo da Vinci e Miguel Ângelo eram verdadeiros inimigos. Porém, era Da Vinci que ignorava e desprezava Miguel Ângelo. Em seus escritos não há a menor menção a sua existência ou qualquer diálogo. Mesmo assim, conta a lenda, que Da Vinci passou pela Piazza della Signoria e Miguel Ângelo apontou uma peça de mármore sua que ele iria reivindicá-la, porque o pintor estava velho demais para esculpir. Da Vinci pegou uma barra de ferro de dobrou para demonstrar sua força. Imagine que esses dois estiveram lado a lado no Palazzo Vecchio pintando a Batalha de Anghiari. Nenhum dos dois pôs termo a obra. Quando o ser humano é considerado desprezível por mais de uma pessoa, nem sempre existe a figura de um desprezador. O desprezo é um sentimento conquistado também, na mesma proporção, que o ódio ou o amor. Assim, se fazer desprezível não é o mesmo que ser desprezado. Haja vista, que nem sempre o desprezo tem um motivo justo, onde o desprezado tenha culpa. Ao contrário, ninguém se faz desprezível sem esse motivo justo. Dessa forma, a diferença entre a morte e o desprezo está, exatamente, na paixão. Uma das características do desprezo é espaço vazio do sentimento.

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