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O Olho de Niemeyer

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JOSÉ MEDEIROS * ?Um artífice do concreto, utilizando argamassa do imponderável?. Estive recentemente em Curitiba e incluí em minha programação uma visita ao ?Novo Museu?, inaugurado em novembro, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer. Quem caminha no interior do museu tem a estranha sensação de encontrar-se numa nave espacial, pelas cores, extensão dos espaços, rampas e pátios. Ali se abrigam sete exposições, a maioria delas no campo das artes plásticas. Em exterioridades, chama a atenção uma torre central, chamada carinhosamente pela população de ?o olho de Niemeyer?, pois tem o formato singular de um globo ocular, de um corpo esférico, que mais parece flutuar no horizonte. É uma construção diferente, eu diria surrealista (muito de sonho e de arte) para olhos habituados aos edifícios comuns. Encontro numa frase desse arquiteto (vai completar 94 anos), talvez a melhor definição de sua obra: ?... lá está o NovoMuseu a surpreender todos que passam. Uma arquitetura que foge a tudo que viram antes. Toda feita de audácia, de técnica e de fantasia?. Volto no tempo para relembrar meus primeiros contatos visuais com edificações desse gênio da arquitetura. Nos anos sessenta conheci a Igreja da Pampulha, em Belo Horizonte, e relutei em acreditar que se tratava de um templo religioso, tais as inovações modernistas que apresentava. Fugia aos moldes tradicionais das igrejas de então. Em Brasília, alguns anos depois, novas surpresas ao conhecer a cidade, o Palácio da Alvorada, a Catedral, o conjunto da Câmara e do Senado, diante dos quais um único pensamento me dominou: quem planejara essas obras-primas, quem desenhara com tamanho senso de harmonia e aperfeiçoamento estético? Ao longo desses anos venho acompanhando a história de Niemeyer que se rebelou contra a rigidez de formas em busca de leveza e fluidez visual, sem falar às exigências da segurança de suas estruturas. Abriu uma janela para o mundo, através de reconhecidos trabalhos realizados no Brasil, em Nova Iorque, Paris, Roma e Argélia. Costuma repetir que fazer um projeto que ?não representa nada de novo, mera repetição do que já existe, não lhe interessa, não o satisfaz?. Gosta de surpresas arquitetônicas que contrastem com a monotonia existente. Uma palavra a mais, dessa vez sobre as exposições de esculturas e artes plásticas que ali estão sendo exibidas. Modernas, moderníssimas. Um público perplexo. Extravagâncias? ? Não. Basta refletir que a arte moderna é liberdade, abertura, insubmissão a dogmas e antigos conceitos. Se a arquitetura do museu está muito adiante de sua época, as pinturas e esculturas desafiam a imaginação. Um artista plástico, do melhor nível, explica que, na atualidade, ?a relação entre o espectador e um trabalho de arte contemporânea é baseada fundamentalmente num conflito entre o que é apresentado e o conceito de obra de arte que esse espectador carrega consigo. Estabelecido esse conflito acontece uma natural aceitação ou repulsão da obra pelo espectador. Tudo que é revolucionário ou inovador entra em choque com os valores preestabelecidos?. Niemeyer, reconhecido como um dos nomes mais importantes da moderna arquitetura, recebe agora uma expressiva homenagem popular. É tema de enredo de escola de samba. Vai ser exaltado em versos e em vozes, ao longo da avenida do samba, o Sambódromo, uma obra que também leva a marca de sua capacidade criadora. (*) É MÉDICO E EX-SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO E DE SAÚDE

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