Opinião
Fogo nas previs�es
Pelo visto nas revisões cometidas pela equipe Lula, algumas ilusões começam a se desfazer. As complexidades do Brasil, de sua economia e de sua sociedade despontam e se impõem, inexoráveis, frente aos sonhos. O desafio é não renunciar ao sonhado, visto não ser possível torná-lo real a curto prazo. Fácil é amoldar-se ao sistema dominante e contentar-se com elogios por manter-se no caminho dos outros (tão criticados antes). Para citar um entre muitos exemplos de recuos, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) reavaliou suas próprias projeções e passou a considerar um maior aumento do preço da gasolina ao consumidor. Antes, o Copom queria acreditar que, neste ano de 2003, a gasolina sofreria um aumento de apenas 0,2% em relação aos aumentos de 2002. Refazendo suas contas, o Copom informa que o preço da gasolina ao consumidor deverá ter um preço 8% maior neste ano do que ao longo de 2002. E se tiver a tão alardeada guerra contra o Iraque, essa previsão se mantém? Nada indica que os preços dos combustíveis possam se manter estáveis neste conturbado 2003. O que o governo federal precisa é de um novo projeto estratégico para o campo dos combustíveis, encarando as possibilidades e potencialidades brasileiras na área dos combustíveis de origem mineral e de origem vegetal, ampliando essa visão para o horizonte energético como um todo, envolvendo petróleo e seus derivados, o gás natural e o álcool em um amplo projeto inserido numa realidade mundial onde se materialize o virtual monopólio americano sobre as reservas petrolíferas. Sem esse projeto é pura ilusão especular sobre o controle do preço da gasolina e dos demais combustíveis. A grande falha é que o governo brasileiro continua se recusando a pensar como produtor e insiste em se posicionar como consumidor, ou, no máximo, como camelô de energia ? regateando preços no varejo, pensando em agradar ao mesmo tempo ao público (o povo brasileiro) e aos patrões (os grupos internacionais controladores do petróleo e seus derivados). Sem revogar esse entendimento viciado, as ilusões continuaram a imperar e a serem consumidas sem dificuldade pelas chamas da realidade.