Opinião
UM PADRE NO CABAR�
A história é verdadeira e aconteceu numa importante cidade do interior de Alagoas, na madrugada do último dia do mês de abril de 1966. Apenas os nomes dos personagens são fictícios por entender que é desnecessário citá-los, até porque alguns já partiram ?dessa para uma melhor?, inclusive o protagonista. Pe. Olavo, no comando da sua paróquia, sempre foi um sacerdote muito respeitado, querido por toda a comunidade religiosa, católica ou evangélica, lideranças políticas e empresariais. A sociedade o admirava por ser um homem impulsivo que odiava a restrição, a discriminação e o preconceito. À época, ?um jovem padre sensível, altamente energético, corajoso, destemido e empreendedor?, como bem definiu o advogado Eraldo Cosme, seu amigo de longas datas. Estava sempre aberto ao diálogo, não gostava que o chamassem de monsenhor, homenagem a ele conferida pelos ritos da igreja. Convidado pelo vaticano para galgar o posto de bispo diocesano, nunca aceitou, recusou todas as vezes que foi consultado afirmando que: ?eu sou padre e serei padre sempre?. Mas, para o povo foi o ?Bispo de fato?, tamanha a sua influência no meio religioso e na vida comum da diocese onde todos os demais pastores o tinham como referência sacerdotal. Entre tantos os que buscavam seus conselhos no confessionário da vida, estavam Ivaldo Barroso e Helionaldo Teodoro, dois amigos-irmãos. Amigos de intelectualidade e boemia. Amigos do violão, dos amores platônicos, das noitadas de seresta sob o olhar iluminado da lua e a janela disfarçadamente entreaberta escondendo o suspiro apaixonado da pretendida. No fatídico 31 de abril daquele ano, já passando da meia-noite, o Pe. Olavo recebe uma triste notícia: morre em Maceió num trágico acidente automobilístico, Helionaldo Teodoro, o amigo, o irmão inseparável de Ivaldo Barroso. O padre sabia tudo antes de todos e àquela hora precisava localizar o Ivaldo para lhe informar da tragédia. Ninguém encontrava o dito cujo, em casa, nos bares, em nenhum dos lugares costumeiramente por ele frequentados! Foi aí que o reverendo chamou Joãozinho, seu guia de confiança do Jeep Willys modelo 1954 e disse: ?toca para o cabaré?. O quêêê? Cabaréééé?? Incrédulo, acelerou o motorista. Na conhecida Rua Chico Novaes, na famosa Night and Day, onde a loira Brigite exibia a exuberância das curvas deliciosas do seu corpo, o padre, ornamentado de batina preta, parou o saxofonista que tocava o grande sucesso da época, Relógio, e gritou para o Jonas, dono da boate: ?chame o Ivaldo agora?. Aquelas alturas toda a rua parou, o cabaré inteiro parou e não poderia ser diferente. Um padre ali, naquele prostíbulo? Abençoou as meretrizes que lhe beijaram a mão direita e levou o escritor e jornalista Ivaldo Barroso até a casa do prefeito, que lhe conseguiu um carro com motorista para levá-lo à capital ao encontro do corpo do amigo inseparável, tragicamente morto naquela noite.