Opinião
CENAS DO INTERIOR
Aprecio pegar a estrada rumo ao interior, de dirigir sem pressa em direção às cidadezinhas da nossa Alagoas. Habitualmente faço isso indo para Murici ou Anadia, e a paisagem de ambos os percursos, mesmo já sendo familiar, não cessa de me brindar com novidades que enchem os meus olhos e alegram a minha alma. Nem sempre ver é enxergar, e por isso eu busco fazer um esforço para não deixar que passem despercebidos os muitos cenários bucólicos que me fazem voltar no tempo e revisitar paisagens da minha velha infância. A casa à beira da pista, caiada de branco e circundada por plantas fincadas em latas de tinta vazias, não dispensa o alpendre que abriga a rede modorrenta. Meninos sambudos correm no terreiro atrás das galinhas alvoroçadas, atiçando a raiva do vira-lata amarrado a uma jaqueira frondosa. Um cavalo magro passeia no minúsculo cercado, ao lado de uma vaca leiteira que rumina um punhado de palma triturada. Alguns metros adiante a barraquinha de frutas expõe mangas, pinhas e melancias de vez, e o vendedor desdentado propagandeia o seu produto: ?É tudo de primeira, moço, tirado agorinha mesmo do pé. Pode chupar sem medo?. Gosto de parar o carro aqui e acolá, de ouvir o linguajar matuto, de tirar um dedo de prosa com quem me oferece o resultado do seu labor penoso e constante. E com a dádiva generosa da natureza eu me ponho a pensar no quanto de riqueza ainda temos guardado em nossas terras férteis, saciando a nossa fome e nutrindo as nossas débeis esperanças. Há, nos cantinhos mais recônditos desse nosso imenso Brasil, sempre muito a ser apreciado, e os caminhos nos abrem essa possibilidade de chegar bem perto das coisas onde elas surgem, com toda a sua espontaneidade e singeleza. Por vezes salto do veículo e ponho na carroceria uma pedra que me chama a atenção, um galho diferente caído ao solo, uma folha que me lembra um passar qualquer. Noutras fotografo com o celular uma flor silvestre solitária à margem do caminho, pouso certo para borboletas multicores, testemunha silenciosa da força vital que cativa e seduz, beleza marcante que atrai o olhar e acalenta o espírito. Os rios que singram entre canaviais e matas, ora caudalosos, ora tímidos, por sobre pedras e lajedos, apontando veredas. As serras que despontam rumo ao céu, gigantes verdes que impõem a sua presença nas formas mais variadas. Cores, sons, cheiros ? presença marcante da natureza na festa da vida que se renova. Em cada canto, um tesouro; em cada quadro, um pequeno espetáculo de ternura e de encantamento.