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Opinião

O CANTO DA SEREIA

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Para mentes liberais, a ideia de criar um plano de saúde popular pode parecer ótima. Hoje o mercado de saúde suplementar é altamente regulado pela ANS, que elabora uma imensa lista de procedimentos obrigatórios. Isso significa que temos que escolher entre tudo ou nada, ou um plano caro que cobre tudo ou ficar a mercê do tão famigerado SUS. Deixar que o mercado se autorregule é uma miríade do mundo moderno. Funciona bem na maior parte das vezes, mas não sempre. O melhor exemplo é o seguro contra acidentes. A maioria dos clientes paga, mas não vai utilizar, então eventuais falhas na prestação do serviço quase não repercutem negativamente. Fica fácil, assim, vender um seguro barato e perfeito, mas que não cumpre o prometido. Milhões comprarão a promessa, e só alguns desafortunados descobrirão o quanto foram enganados. Hoje os planos de saúde já trabalham mais ou menos nessas bases. A maior parte dos custos se dá com poucos usuários acometidos por doenças graves. As operadoras vendem planos que prometem o paraíso a preço módico, mas que, na hora da verdade, são grandes decepções. A ideia do governo, admito, é mais honesta, permitir que se vendam planos de saúde exclusivamente ambulatoriais. Nesse caso, ninguém enganaria ninguém, o coitado que adquirisse um plano desses saberia, de partida, que ele não servir justamente para quando ele mais precisar. Parece justo, mas não é. Os estudos de psicologia moderna explicam como o homem toma escolhas melhores quando decide em grupo. É por isso que temos uma contribuição previdenciária obrigatória e o FGTS. Poderíamos entregar esse dinheiro para o trabalhador decidir se quer gastar ou poupar para o futuro, mas sabemos que a maioria, individualmente, faria a escolha errada. Coletivamente poderíamos mudar a lei e acabar com a aposentadoria compulsória, mas não o fazemos. Juntos somos melhores. As filas e hospitais sucateados do SUS não são uma preocupação para a maioria da população, que é jovem e saudável. Um plano de saúde não hospitalar baratinho seria um canto de sereia irresistível. Induziria leigos a tomarem a decisão errada, além de enfraquecer o SUS. E aposto um rim que os preços seriam muito próximos aos já praticados hoje pelos planos populares que existem no mercado, que são obrigados a cobrir tudo e, mesmo assim, crescem e lucram cada vez mais.

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