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A CASA DO MEU AV�

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Meu caríssimo irmão Márcio partiu para a eternidade no último dia 27 de agosto com 84 anos. A morte faz parte da vida. Com a partida resta a saudade. E no silêncio da noite eu fiquei recordando os meus tempos de criança com ele na casa dos meus pais e dos meus avós que eram nossos vizinhos. O importante em nossa vida não é realizar grandes obras, mas realizar pessoas. E esse foi o notável trabalho dos meus pais e dos meus avós num pequeno espaço da minha infância, pois com meus 8 anos meu avô partiu. Recordo com nitidez minha presença em sua casa constante. Eu, o Chinho (meu irmão falecido) e meu primo Lula. Vivíamos sempre ao seu lado. Sempre tranquilo, elegante, gostava de literatura e era professor. Quando criança mergulhava nas sombras dos enormes eucaliptos do Parque Gonçalves Lêdo, onde ficava nossa casa, sempre acompanhado dos meus pais e do meu avô, vendo o bondinho passar lentamente contornando a praça. E eu ficava a brincar entre as raízes das enormes árvores, como se fossem o sistema circulatório da natureza. Logo cedinho ia com meu avô catar as mangas caídas no imenso quintal cheio de mangueiras e derrubadas pelo vento durante a noite. O chão era coberto de folhas secas. Confesso que essa página tão expressiva quão afetiva da minha vida, transporta-me a um passado longínquo, aos meus cinco anos de idade quando aprendi minhas primeiras letras com meu avô e minha avó. Tranquilo naquela mesa da copa, eles me mostraram as primeiras incursões pelo mundo das letras e dos algarismos. Foi ali a minha primeira escola da vida e sobretudo meu primeiro teste sobre o viver. Na sala grande da casa havia um antigo relógio preso na parede com os dizeres logo abaixo: CARPE DIEM ? TEMPUS FUGIT. E eu e meu irmão sempre perguntávamos o que aquilo significava. E ele dizia: Significa que o tempo passa e não há forma de segurá-lo. E concluía dizendo: CARPE DIEM significa colher o dia como quem colhe um fruto delicioso, pois esse fruto é a dádiva de Deus. Meu estimado irmão partiu. O fato é, que a nossa vida terrena é fugaz. Somos todos frágeis, não tenham dúvida. Ele deixou ao partir um verdadeiro tesouro: Urânia, uma esposa notável, filhos maravilhosos, noras e netos que representavam o orgulho de seu viver. É assim a vida. Passa. Meu saudoso avô dizia que quando chovia as plantas ficavam alegres. Assim, tenho certeza, que quando temos alegria temos Deus como companheiro. Num dos cadernos de Camus encontra-se este parágrafo: ?Os pássaros durante o dia, voam em todas as direções. Ao cair da noite, entretanto, voam para o mesmo lugar?. Assim é a nossa vida. Ao cair da noite da vida, voamos para o mesmo destino. Que meu irmão descanse em paz.

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