Opinião
Nov�ssima ordem
EDUARDO BOMFIM * Reflito sobre as contradições que se estabeleceram no novo contexto político nacional, após a vitória esmagadora de Lula à presidência da República. E sobre ela, venho sendo até redundante em minhas constatações. Tenho reafirmado que o velho, o esgotado, superado, o derrotado, teima em permanecer, porque possui raízes profundas, fincadas na realidade durante o longo reinado de oito anos do imperador Fernando Henrique, conhecido como o ?príncipe da moeda?. Já o novo, tem pressa em estabelecer-se e precisa fazê-lo, sob pena do governo correr o risco de perder a extraordinária popularidade conquistada sob as bandeiras da esperança e das mudanças para o Brasil. Daí, duas questões adquirem grande importância. A primeira delas é que as principais forças de esquerda do país, PT, PCdoB, PSB, PDT, PPS, assumiram durante a campanha eleitoral uma imensa responsabilidade diante do povo brasileiro. Ou seja, cada militante de base, sindicalista de esquerda, parlamentares progressistas, intelectuais ou quadros partidários. Caso contrário, a quem o povo pediria informações, reivindicaria ou mesmo protestaria? Aos formuladores de um projeto fragoro-samente derrotado nas urnas recentemente? Insisto na necessidade do governo e partidos progressistas terem a obrigação de constituírem um projeto nacional, com suas particularidades regionais, observando a prioridade aos 50 milhões de pobres que vivem abaixo da linha minimamente suportável de existência. Fala-se em reformas e elas são necessárias. A exemplo da previdência, política e tributária, entre outras. Mas a primeira deve assegurar os direitos legítimos dos aposentados e pensionistas, exceção às aberrações que provocam os grandes privilegiados. A política tem por obrigação reafirmar a legalidade dos partidos de feição ideológica e comprovada tradição histórica. É questão elementar da democracia uma velha bandeira das esquerdas durante e após o regime militar, especialmente na constituinte de 1987/88. A tributária não pode eximir-se do combate aos grandes sonegadores. A flexibilização da lei de responsabilidade fiscal, criando as condições para os governos estaduais, à governabilidade e investimentos maciços em equipamentos de interesses populares. Não é possível, igualmente, ignorar o fato de que enquanto o país empobrecia, estagnava economicamente, e o povo descia a ladeira da miserabilidade, os bancos auferiam lucros estratosféricos. São os caminhos concretos de abordagem e combate à injustiça social e em defesa dos ?condenados da terra?. A reforma agrária deve apresentar-se como instrumento de produção de alimentos e modernização da sociedade. Para tanto, deve ser acompanhada de fator de consolidação de poderoso movimento de massas, aliado ao governo em seus objetivos de mudanças profundas de âmbito mais geral. O governo Lula deve buscar o alargamento de sua base de sustentação no Congresso Nacional, perseguindo firmemente uma reforma constitucional, que tenha a ousadia destes objetivos que visam, fundamentalmente, os interesses da população brasileira. Já a nossa política externa há que reafirmar a defesa da paz mundial, condenando aventuras imperialistas, como a iminente guerra contra o Iraque. Além disso, zelar pelos interesses comerciais do país no cenário internacional, tendo a plena consciência que já vivemos uma economia de guerra que tende a se agravar. Não há como ignorar o fato de que uma novíssima ordem mundial, extremamente dramática, instalou-se. A nação, especialmente neste cenário, não pode, não deve ficar à mercê do mercado especulativo mundial, gerando uma espiral inflacionária e um clima de agiotagem financeira insanos. Vivenciamos uma nova quadra planetária que exige caminhos originais, reordenando nossa produção, reforçando o mercado interno, investindo em inovações energéticas, baseada nos nossos potenciais. Apoiarmo-nos em nossas próprias forças, tensionando a criatividade ao extremo. A verdade é que quatro meses após as eleições de outubro, tudo mudou e impõe-se ousadia e reformulação radical das nossas estratégias. (*) É ADVOGADO