Opinião
OS MESTRES MUDOS
Gosto de estar cercado pelos meus livros espalhados nas estantes, no birô de trabalho, na mesa da sala e até no chão. Não me perco em meio à bagunça e sempre localizo logo o volume de que preciso ? a não ser quando algum incauto resolve ?arrumar? as minhas prateleiras, deixando-me sinceramente encolerizado. Quem está na companhia de um bom livro nunca se acha verdadeiramente sozinho, e sempre há de receber lições que lhe serão bastante úteis ao longo da caminhada. A presença material de um livro mais cedo ou mais tarde nos leva a consultá-lo, e não raro encontramos novos caminhos dentro dele, uma nova leitura se descortina diante dos nossos olhos embevecidos. Eu, que só sei ler sublinhando frases e rabiscando notas à margem das páginas, por vezes me surpreendo quando tomo um livro antigo e me deparo com o que me chamou a atenção, dez ou doze anos atrás, assim como pelo que me passou despercebido na leitura anterior e que hoje me toca tanto o coração. Quando eu me for, os que quiserem saber de mim não precisam nem ler as besteiras que eu escrevi; basta que folheiem os livros que eu li e vejam tudo o que eu marquei neles. Os meus livros guardam consigo o inventário das minhas dúvidas, dos meus espantos, das minhas interrogações. Alguns são mais queridos, e habitam o quarto onde durmo: os de Carlos Drummond, de Jorge Cooper e de Sidney Wanderley. Outros, os de arte ? principalmente arte alagoana ? ficam na sala, ávidos para serem abertos por quantos vão à minha casa. Os de direito, de onde tiro o pão de cada dia, acompanham-me no carro, no gabinete e no escritório. Mas todos, indistintamente, são muito importantes para mim, e me dão o prazer de tocar nas suas folhas, sentir a textura do papel, demorar na contemplação de uma capa bem elaborada. Por isso eu não aprecio publicações eletrônicas. Livro, para mim, é para ser manuseado, para ficar com as páginas engorduradas pelas nossas mãos, para ficar aberto em cima do sofá quando temos de interromper a leitura, contrariados, a fim de resolver alguma urgência que se impõe. Dizem que Rui Barbosa somente entrava em sua biblioteca, a qualquer hora do dia, quando estava de paletó e gravata. Era por respeito aos autores, explicava ele aos que lhe questionavam a atitude. Aplaudo a sabedoria do mestre baiano. De fato, quem tira da própria inspiração tanta coisa capaz de nos encantar, quem nos revela tantos e tão maravilhosos tesouros, quem nos propicia viajar sem que nem saiamos do lugar, merece ter de nós a maior das considerações.