Opinião
O FIL�SOFO DO DIABO
Antecedendo em muitos séculos Freud e Lacan, Maquiavel escreveu ?Quem quiser fundar um Estado e lhe dar leis deve pressupor a maldade dos homens?: ele afirmava que uma política que confiasse na natureza humana seria, consequentemente, um fracasso. Seria o pensamento de Maquiavel um elogio aos tiranos? Para o entendermos, é indispensável situar a época na qual Maquiavel escreveu O Príncipe: a Itália estava prestes a ser destruída por guerras civis e ameaças de potências estrangeiras, assim como os fundamentos da filosofia de Maquiavel contrariavam frontalmente a visão medieval da política de então, herdada da filosofia de São Agostinho, segundo a qual o poder político seria garantido a quem tivesse uma moralidade e espiritualidade abençoada pela Igreja. Maquiavel secularizou e dessacralizou a política. O detentor do poder deveria se preocupar apenas com uma coisa: estabelecer e conservar o poder. O valor da moral, a sinceridade seria ?louvável? . Mas isso não significaria que o político deveria ser moral. Aceitava como inevitável a insuficiência da razão e da lei no combate político, e a impossibilidade de governar humanamente por causa da maldade e animalidade humanas. Defendia a capacidade do poderoso de adaptação às circunstâncias. Mas vivendo em uma época de guerras, relatava a insuficiência da força bruta que apenas gera violência e pode ser fragilizada. No entanto, Maquiavel não é ?maquiavélico?, como ficou cunhado na história. O que ele propõe em sua obra não é o imoralismo. Como a crueza de sua filosofia foi extremamente impactante, e desafiou o reinado do saber agostiniano, Maquiavel foi alcunhado de o ?filósofo do diabo?, e há uma piada segundo a qual Maquiavel, em seu leito de morte, instado a renegar todas as suas obras, teria respondido ?Este não é o momento para se fazer inimigos?. Alguém poderia afirmar com certa razão que no cenário nacional muito se utilizou e se utiliza do que existe de humanamente mais cruel na filosofia de Maquiavel: o País enfrenta uma situação de calamidade social e econômica, e muitos privilegiados, ocupantes de cargos públicos, que deveriam ser solidários, contribuindo e propiciando as mínimas condições de governabilidade para que se possa trabalhar uma saída do imenso buraco em que estamos, pelo contrário, só pensam em seus interesses pessoais. Os discípulos do ?filósofo do diabo?, no que ele tinha de mais cruel , continuam sedentos, implacáveis em sangrar o erário.