Opinião
MALASSOMBROS
Havia muitos malassombros na casa do meu avô Zezinho Fogueteiro. Pelo menos é isso que diziam os seus vizinhos da Rua 05 de Julho, por todos conhecida como ?Correio da Tarde?, alusão ao jornal sensacionalista que fez sucesso em Alagas na década de 50 divulgando fofocas e inverdades. O local tinha servido de cemitério para as vítimas da epidemia de cólera, no final do século XIX, e ainda havia no terreno o velho cruzeiro de madeira, símbolo marcante da tragédia que se abatera sobre Murici. Dizia-se que muitas pessoas haviam sido jogadas, ainda vivas, nas grandes valas comuns, sem direito sequer a uma mortalha ou um caixão, por ignorância dos parentes que temiam o contágio fatal. Os gritos abafados se ouviam madrugada adentro, inquietando o Campo Grande, que naquela época era um bairro considerado afastado do centro da cidade, onde as famílias tradicionais habitavam às margens do rio Mundaú. Vezes sem conta minha avó Maria contou-me as visagens que presenciara, em seus muitos momentos de solidão na casa soturna. Eram pedras jogadas do quintal na sala de jantar, panelas que caíam da mesa sem que ninguém lhes tivesse tocado, sombras que se esgueiravam de um quarto para o outro, gemidos que eram escutados em plena luz do dia. Numa hora as janelas se abriam abruptamente, noutra a porta se fechava com violência, como se uma força misteriosa as estivesse movendo. Um vento frio arrepiava os pêlos de quem estivesse por ali, mesmo com o sol a pino. E minha avó, pequenina e frágil, agarrava-se na sua devoção ao Padre Cícero e a Santo Antônio para vencer aqueles momentos de temor e angústia causados pelo sobrenatural que rondava a sua moradia, terço nas mãos e velas acesas perante o oratório que fora do meu bisavô José Vicente e que hoje se acha comigo, única herança que me coube. Dona Hilda Souza, dona Tonha Ernestina e dona Sebastiana Lindraz, amigas da minha avó, comentavam episódios dignos dos melhores filmes de terror, conversando baixinho como se não quisessem chamar a atenção do além. Eu mesmo, nas visitas que lhe fazia todo fim de tarde, graças a Deus nunca vi coisa alguma entre aquelas paredes rústicas e manchadas (se bem que nunca me aventurei por elas sem a companhia de um dos velhos). Raramente andei pelo grande quintal cheio de árvores frutíferas e de muitos gatos, temendo deparar-me com almas do outro mundo. O que me sobrava em curiosidade faltava-me em coragem, e o mistério dos segredos da antiga construção permaneceu como uma incógnita para o meu espírito infantil. Foi melhor assim.