Opinião
DA LISONJA
Para quem não sabe, a lisonja é o louvor afetado pontilhado de adulação. Está presente em todos os estratos sociais. E aos que imaginam que a adulação, conhecida vulgarmente como puxa-saquismo, é filha da lisonja está enganado. O adulador, às vezes, nem sabe lisonjear, porém marca sua presença promovendo sua própria inferioridade. Já a lisonja, esta, pertence às altas rodas. É como uma semente que se planta para receber depois na colheita. O lisonjeiro promove seu protagonista para que o seu papel secundário realce ainda mais. Mas, é fluência verbal, a escolha das palavras certas, a jocosidade aplicada ao conteúdo é quase um libelo ao homenageado. Se ele não é, deveria ser exatamente como descrito. A lisonja no exagero de sua retórica é quase uma peça acusatória de virtudes. Nos tempos mais recentes a lisonja é como um selfie acompanhado da celebridade, o importante é o reflexo estelar que possa causar. Isto significa que o lisonjeiro não joga conversa fora, ao contrário, traz para si mesmo a volúpia de seu discurso e contamina o ar com sua falácia. O lisonjeiro toma a cena e se torna protagonista no teatro das relações sociais. Para quem se sente preocupado em elogiar, não tenha receio. O elogio não é a mesma coisa que a lisonja. Preza-se sua metáfora pela sinceridade amena. O elogio não é aliciador nem envolve o elogiado numa teia como o lisonjeador, ao contrário, não impõe a prodigalidade, é sereno e elegante em seu contexto. O elogio não dialoga como a lisonja que vai e volta, muitas vezes, com outra no mesmo quilate. É como o arroz na cerimônia de casamento, é atirado nos noivos, mas geralmente, cai também nos convidados. Pior, quando a capciosa expressão detona: ? É lisonjeiro de sua parte... Frase afiada que nem sempre desmonta o verboso que se alterna num enlace de uma expressão ainda mais fugaz. E, para não perder o brio repensa o fado até conseguir se recompor enquanto a plateia lança seu periscópio mordaz. O silêncio lhe caberia bem se não buscasse distinguir-se ainda mais. Porém, essa inquietude descompassada é o vilipêndio tributado aos opositores de sua expressão burlesca. Por mais que tente enganar, o lisonjeiro é capaz de desconstruir a verdade do mais sublime panegírico, cooptando um verbo difuso e inebriado pelo seu absinto. Ao tentar impor sua visão crítica propõe embriagar o autor com seu parafraseado empolado e viscoso. Somente uma percepção interior da própria verdade de cada um permite distanciar-se da lisonja.