Opinião
DO EMPODERAMENTO
Nenhum autor tratou esse tema com tanta sabedoria como Maquiavel. Sua obra prima, ?O Príncipe? mostra, claramente, o palco do poder que se instalou no início da Idade Moderna, quando o homem e não mais Deus era o centro do universo. Nesse pequeno livro o autor conjurou todo o espírito renascentista na arte de se chegar ao poder. Seus personagens são figuras reais de um mundo dominado pelo Bispo de Roma, Alexandre VI, passando por César Bórgia até Lourenço de Médici, desfilando numa galeria de feras incontroláveis. Porém, não é a questão de estar no poder e sim como alcançar o poder e manter sua supremacia. Um duque medieval podia ser tão rico e poderoso quanto um rei ou ainda mais. A afirmação está no livro: ?Títulos de Nobreza e Hierarquias?, de Antônio Luiz M. C. Costa, página 22. Isto se chama empoderamento e ocorre quando o indivíduo ganha poder ou atinge a esse poder. Um duque podia ter um exercito maior do que seu soberano e assim tornar-se mais poderoso que ele. Este é um poder conseguido pela riqueza e força. Mas o empoderamento é um destino com muitos caminhos. Na Constituição do Brasil, está escrito que ?todo o poder emana do povo?. Na realidade quando não se chega ao poder pela força, este depende sempre de quem o prover. Napoleão não deu poder a si mesmo quando pôs a coroa em sua própria cabeça, ele já gozava desse poder. Assim, a ausência papal o equiparou à Igreja em poder. Tradicionalmente, esta unção vinha desde o tempo de Carlos Magno e Bonaparte rompeu. O exercício do poder gera autoridade em qualquer esfera social. ?Eu sou o comandante dos burros!?, disse um matuto vestido de soldado de polícia ao Governador Álvaro Paes, na entrada de Palmeira dos Índios, segundo Graciliano Ramos. Sua função era apenas tanger os jumentos para fora da cidade. No entanto, sabemos que qualquer um que vestia a farda já se sentia autoridade para prender e arrebentar com qualquer um. Aquele pelo menos era só comandante dos burros. É, no entanto, do poder periférico, daqueles satélites que giram em torno dos mais poderosos que estão as escaramuças. Esses são os piores. Isto, porque a maioria é fundamentalista quando diz respeito a uma ordem, executam-na ao pé da letra, sem pestanejar. Age como um cão de guarda apenas pelo instinto, sem raciocinar sobre o que está fazendo. Comete excessos. Faz suas regras toscas. Esbarra, abre caminho, sobrepõe obstáculo, passa por cima. Para esta horda não há exceção. Mais ainda, se for louvado pelo dono, isto é, o patrão. Então fica ainda mais afoito, seguro de si. Este é um poder destruidor e letal. Pessoas assim são capazes de se vangloriarem de suas façanhas, por mais assustadoras que sejam.