Opinião
O voto, a democracia e a cultura da corrup��o
A eleição é considerada a festa da democracia. E assim deveria ser. Mas a movimentação nos bastidores da campanha política nas últimas horas que antecederam à eleição, se não rendeu provas, deixou a certeza de que a prática da compra de voto ainda é fator decisivo no processo eleitoral em várias cidades brasileiras, e reforça a tese de que a cultura da corrupção continua arraigada entre eleitores e candidatos, definindo o destino do País. As notícias de compra de voto correm à solta, mostrando que, apesar de tudo, continua ?chovendo? dinheiro nas eleições. Isso está tão intrínseco no seio da sociedade que parece um senso comum entre eleitores de todas as idades, cidadãos de todas as classes sociais, a concepção de que eleição se ganha com dinheiro. E muito dinheiro. E, o que é pior, boa parte parece não perceber que está aí a raiz da corrupção e suas consequências. Não é difícil encontrar alguém que já não tenha recebido pelo menos a oferta de dinheiro para votar e até se vanglorie da sua ?esperteza?. E não é raro encontrar quem olhe atravessado, tentando idiotizar alguém que revele ter recusado oferta dessa natureza. De uma maneira geral, a maioria dos eleitores, assim como a maioria dos candidatos, pensa que o processo eleitoral é um jogo, em que cada um leva vantagem como pode. E, nesse universo, o voto vem perdendo a sua força transformadora, o seu potencial cívico de instrumento de cidadania e transformação social. E, pelo jeito vai, levará tempo, talvez décadas, para se constituir uma nova concepção sobre o valor do voto, baseada mais na qualidade da escolha dos representantes políticos e no compromisso com o bem comum do que nas vantagens individuais que se possa tirar dos candidatos no processo eleitoral. De acordo com boletim do Tribunal Superior Eleitoral, divulgado no final da tarde de ontem, 150 candidatos e mais de mil eleitores foram presos em todo o País no dia da eleição por motivos diversos, inclusive corrupção eleitoral, mesmo diante de tanta exposição sobre a corrupção política e suas consequências na sociedade. As pessoas foram às ruas, protestaram, derrubaram governo, mandatos foram cassados, prisões foram feitas, castelos ruíram, mas, de Norte a Sul do País, mesmo com a Polícia Federal e órgãos fiscalizadores na cola de candidatos e cabos eleitorais, as notícias de compra de voto correram à boca miúda nestas eleições.