Opinião
Hoje � carnaval
MILTON HÊNIO * Estamos em pleno domingo de carnaval. O Brasil inteiro para de pensar em seus problemas e se entrega totalmente à folia. São os quatro dias em que o brasileiro deixa pra lá suas dívidas, suas angústias e se mete no meio do povo procurando a alegria. Nesses últimos 50 anos mudou bastante o carnaval. Passou de uma autêntica manifestação de rua, para uma alegria organizada, de efeito rentável. As marchinhas memoráveis e os agitados frevos dos anos 50 e 60 que eu tanto vivi, foram sendo substituídos por sambas progressivamente mais velozes e logo surgiram os trios elétricos. Felizmente, uma boa turma de saudosistas como o meu estimado colega e amigo Marcos Davi e sua simpática turma do Pinto da Madrugada, fazem ressurgir as emoções do passado com o bloco na rua, frevos e marchinhas inesquecíveis e de letras românticas. A turma da minha idade aproveita esses dias para descansar e recordar. É que chegou o tempo da descida da ladeira, tão esperado e tão temido. Tempo de recordações que faz bem ao espírito. As imagens se confundem, a memória despenca de momentos vividos, despreocupados e felizes, onde uma colombina procurava realmente um pierrô apaixonado, com juras de amor, sem pensar só em sexo como nos dias atuais. A vida vai passando e as cenas vividas do passado vão rolando pela nossa mente, como uma espiral que engole a alma, como a moenda que tritura a cana. Eram brincadeiras puras, do lança-perfume como troca de simpatias e flertes, do corso animado com batalhas de confetes e serpentinas e o ?passo? bem animado na Rua do Comercio e Praça dos Martírios. Maceió tinha 70 mil habitantes, em 1960, e, assim, praticamente, todos se conheciam, não havendo confusão nem violência. Rodo era a marca do lança-perfume importado. Tinha a embalagem de vidro e metal dourado. Toneladas de seu líquido eram usadas todos os anos no carnaval brasileiro, só para brincadeiras, sem usá-lo como tóxico. Em 1960, Jânio Quadros proibiu o seu uso em todo o território brasileiro e seu efeito, daí por diante, foi se evaporando com a história. Hoje os tempos mudaram; carnaval de clube não mais existe, os de rua são de caráter empresarial, com predominância de músicas axé e o temor da população contra a violência e a Aids, onde o sexo é extremamente vulgarizado, além das drogas que representam atualmente uma verdadeira epidemia. Aos foliões um conselho: beber em excesso dá muita ressaca, cabeça pesada, boca com forte amargor. Por onde passa o álcool há baderna no organismo. Dentro da cabeça ele age nos neurônios, daí a tonteira e falta de equilíbrio. Com o álcool, os vasos sangüíneos do cérebro se dilatam e pulsam, detonando dor de cabeça. Portanto, ao dirigir alcoolizado pense três vezes que sua vida e a dos outros está em jogo. Segundo as estatísticas, no ano de 2001, morreram 175 mil pessoas no Brasil em acidentes de carro, cujo motivo principal foi o álcool. Hoje é domingo de carnaval. Muito gente vai estar de ressaca sem ter brincado ou bebido. É a ressaca da alma. Tristeza por um amor desfeito, um filho drogado, uma dívida contraída, enfim, uma frustração. Lembre-se meu caro leitor de que depois do carnaval a vida vai continuar. Assim, viva de olhos bem abertos para tudo o que é belo ao seu redor. E seja sempre feliz respirando sem pressa a brisa da manhã, a beleza de uma flor que desabrocha, o canto dos pássaros, as estrelas que encantam a beleza do céu. E seja sempre feliz. (*) É MÉDICO E-MAIL: [email protected]