Opinião
NOSSO MINIZOOL�GICO
Rodeados por animais domésticos que enfeitavam a nossa casa, crescemos, nos tornamos adolescentes e adultos, meus dez irmãos e eu, ali, na aprazível Viçosa, onde a maldade era incógnita, nunca conseguiu atravessar a Serra Dois Irmãos, e parecia afogar-se nas águas densas do Rio Paraíba. Conseguimos, com a aprovação de papai, organizar um minizoológico no quintal da nossa casa e nos alpendres que davam acesso a ele, passando a funcionar como divertimento e ocupação para nós que possuíamos os mesmos sentimentos por animais. Assim, gaiolas foram dependuradas nos caibros, todas com as portas escancaradas para que as aves amestradas circulassem livremente. Voavam, empreendiam longos e curtos passeios, aterrizavam no telhado, mas o melhor cômodo era mesmo perto de nós. Nosso aconchego era sempre mais compensador e seguro do que o espaço imensurável que os cercava. Nós e os ajudantes da casa escolhidos para tão nobre finalidade exagerávamos até nos cuidados necessários, conservando as suas moradias impecavelmente higienizadas. Nas jaulas artesanais confeccionadas em madeira rústica com fechaduras de couro cru de máxima segurança, eram abrigados aqueles mais insubordinados. A nossa fauna era composta de pombos, patos marrecos, araras, tucanos, jacus, galo de campinas, sabiás-laranjeira, curiós, rolinhas e outros, até preguiça, animal incômodo, sem atrativo algum. Seu nome já diz o que é e o que faz. A maior atração era mesmo o travesso quati, de cor marrom avermelhada, tromba alongada, peralta, trapalhão, capaz de provocar discórdias quando destruía o que encontrava a sua frente. Quebrava jarros e estátuas, fazendo mamãe às vezes exclamar: ?ou eu ou esse infeliz vai morar aqui!? Enquanto papai contornava a situação pouco depois às gargalhadas. Adestrá-lo foi tarefa árdua, mas conseguimos ensinar-lhe algumas atividades, como equilibrar-se numa corda suspensa, transitar de um lado para o outro, sob os aplausos dos visitantes que iam aos domingos assistir ao espetáculo. De quando em quando, ele se aconchegava no colo das nossas colegas, que o acariciavam com certo temor. Todas as manhãs antes de partirmos para a escola, éramos arrodeados por todos que recebiam o alimento preferido, empreendendo voo, logo em seguida, apenas retornando quando o crepúsculo se avizinhava. Somente alguns iam e vinham numa constante trajetória, outros iam e não regressavam nunca mais, quando abatidos pelos caçadores famintos. Assim, o mini zoológico foi resumindo até desaparecer completamente, junto com o nosso pranto diário, quando fazíamos a contagem das espécies que nunca aumentava, só diminuía. O quati fugiu um dia e soubemos que foi motivo de banquete regado à aguardente numa determinada residência. Estava gordo e saboroso. Assim, desfolhando alegrias e tristezas, vivemos felizes num mundo que organizamos para nós. Restam as lembranças, a saudade colorida, os ensinamentos dos nossos pais que nos prepararam para amar e respeitar essas criaturas sublimes que Deus enfeitou o mundo para torná-lo menos cruel.