Opinião
Vit�ria sobre medo
JOSÉ MEDEIROS * Na Grécia antiga era cultuado pelos poderosos o deus Pã, uma divindade mitológica, aterrorizante, infernal, assustadora. Dela se esperavam castigos e crueldades. A palavra pânico deriva daí, com o significado de medo, susto ou pavor repentino. A vida moderna com os seus agravos físicos e piscológicos está trazendo à tona uma doença que era pouco conhecida pelo público: a sídrome do pânico, terminologia anteriormente só encontrada nos dicionários de termos médicos e psicológicos. É crise aguda de ansiedade de angústias. Quem é acometido por esse mal, que pode levar a uma sensação de morte iminente, fica com medo de que isso possa ocorrer outra vez. Instala-se um quadro que vem sendo chamado de ?medo de ter medo?, receio de pensar que esse estado penoso se repita, de que a crise possa retornar. No dia-a-dia ouve-se dizer que as pessoas andam estressadas, nervosas, angustiadas, depressivas. A síndrome do pânico vai bem mais além, é uma situação limite, um estado mais grave. Transcrevo o depoimento de um leigo que viveu esse drama: ?Você está em casa, ouvindo uma música, como faz todos os dias. De repente, alguma coisa estranha começa a acontecer. Você sente uma vontade inexplicável de fugir, a boca fica seca, o suor molha a roupa, o coração bate descompassado, mãos e pernas tremem sem parar. Falta o ar que se respira, há um desconforto gástrico. Dores musculares se instalam. Os sintomas lembram o infarto. Pensa-se no pior. Alguns minutos se passam e o mal-estar desaparece sem deixar vestígios. Meses depois, a sensação se repete. E fica tão freqüente que a vida se transforma num infarto?. Especialistas diagnosticaram a síndrome do pânico, que pode ser descrita dessa forma, mas tem muitas outras variações. Se as estatísticas não falham, três milhões de brasileiros sofrem desse mal. Uma pessoa de minha amizade foi assaltada à porta de um caixa-eletrônico, teve seus pertences roubados. Voltou para casa, contou o episódio aos familiares e amigos. Tudo parecia bem em relação à sua saúde. Porém, dias depois começou a ter medo de ir sozinho ao trabalho, de passar pelo local onde havia sido assaltado, de dirigir automóvel, de conversar com estranhos. Passaram-se semanas e não mais conseguiu sair de casa. O corpo estava aparentemente são. No inconsciente, entretanto, ficara gravada uma recordação, um fantasma do medo que serviu como fator desencadeante dos sintomas que o afetaram. Tanto se fala em fobias, em receio de ambientes fechados, de lugares altos, de viajar em aviões, e até em fobia social (um claro constrangimento da convivência com pessoas que não são do mesmo círculo de amizades), que se poderá pensar num surto de angústias, ansiedades e pânicos, sob múltiplas formas e rótulos. No caso da pessoa assaltada no caixa-eletrônico ressalte-se o papel indispensável do especialista que a tratou, e, de maneira especial, o apoio de familiares e dos amigos, que estabeleceram laços de compreensão, solidariedade e dedicação, rebelando-se contra a opinião de colegas da paciente que achavam que tudo aquilo era ?psicologismo?, invenção, excesso de preocupações, Compreenderam a gravidade do caso e multiplicaram ações de apoio. A solidariedade contribuiu para vencer o medo. (*) E MÉDICO E EX-SECRETÁRIO DE SAÚDE E DE EDUCAÇÃO