Opinião
UM PRE�O A PAGAR
Cândido, o otimista de Voltaire, achava que tudo estava certo no mundo porque as coisas não poderiam ser diferentes, pois tudo era feito com o melhor objetivo: os narizes tinham sido feitos para usar óculos, as pernas para andar, as pedras para serem cortadas e com elas serem construídos castelos, sendo natural que o maior barão da província fosse o mais bem alojado, tendo direito ao melhor e maior castelo. Finalizava, afirmando que as pessoas que diziam que tudo estava bem, diziam uma estupidez: era preciso dizer que tudo estava o melhor possível! Os renascidos Cândidos brasileiros que se animaram com a mudança de governo federal e com os pequenos ganhos vislumbrados ? como a redução da inflação ? têm pela frente uma tarefa das mais ingratas, já que o avanço da Lava Jato, tão requerido pela maioria da população, pode ameaçar o pouco que se ganhou até agora. Isso porque a prisão de Eduardo Cunha, antecedida pela de Antônio Palocci, paralelamente à propalada delação premiada de Marcelo Odebrecht, e suas possíveis delações, poderiam levar elevada instabilidade ao governo Temer, abrindo espaço para um cenário onde tudo pode acontecer, inclusive ameaça de instabilidade à tênue recuperação da economia que se visualiza no horizonte. Passa-se a viver uma Escolha de Sofia: até onde os brasileiros honestos, trabalhadores, que nada têm a ver com essa situação vergonhosa estão dispostos a ir? Se os desdobramentos da Lava Jato atingirem o governo Temer e desestabilizá-lo, ameaçando a bruxuleante recuperação da economia,o País deve ir até as últimas consequências, ou em nome de uma tênue, mas almejada estabilidade, deve restringir as ações da Lava Jato e outras instâncias da Justiça? E. Flaiano, escritor italiano, achava que ser pessimista em relação às coisas do mundo e da vida em geral, seria um pleonasmo, pois apenas significava antecipar o que aconteceria. Nem o otimismo ingênuo de Voltaire, nem o pessimismo monolítico de Shopenhauer: como o brasileiro responderá e enfrentará os desafios que os desdobramentos extremos da lava Jato podem trazer? Se as próximas delações e investigações mostrarem que os políticos e partidos principais estão envolvidos, inclusive o grupo que está no poder no Planalto, a Justiça deve ir às últimas consequências e fazer o seu papel saneador? Ou, como diriam os mais cínicos: tudo tem limites! Arrisco dizer que a população que desde 2013 vai às ruas clamando contra a corrupção nacional vai querer ir até o fim, ou essa perspectiva é a do Cândido de Voltaire?