Opinião
A INTIMIDADE NORDESTINA COM A ICONOGRAFIA CAT�LICA
Não há como negar que a cultura religiosa deixou indeléveis marcas na população, sobretudo nordestina, de uma relação social estreitíssima com os denominados ?santos católicos?. Uma essência sobrenatural que se materializa no mundo físico com o universo cotidiano e embora sem nenhum respaldo bíblico, reflete na crença religiosa. Aquilo que Durkheim diz: ?Apaixonamo-nos, com efeito, por nossas crenças políticas e religiosas, por nossas práticas morais, muito mais do que pelas coisas do mundo físico, em consequência, esse caráter passional transmite-se à maneira como concebemos e como nos explicamos as primeiras?. O catolicismo, a principal ramificação do cristianismo, interrompido após a reforma protestante, introduziu na sua doutrina a veneração pela santidade dos mártires e de pessoas de vida consagrada, concorrendo para a criação de uma iconografia como memória da igreja. A fé popular, entretanto, vai além desta simbologia. Como resultado desta relação de crença, fé e algumas vezes, sob influência do sincretismo de religiões de raízes africanas, o ?santo? passa ser um personagem vivo na memória popular. A começar pelo período junino onde São João e São Pedro dormem em seu dia de festejos. O mês seguinte, julho, exatamente no dia 26 é o dia de Santa Ana, a mãe de Nossa Senhora, então este mês é chamado de ?Santana?. Cansei de ouvir minha mãe repetir a frase da mãe dela que dizia: ?Ô mulher imunda essa Senhora Santana?. Porque era um mês de chuva, aguaceiro e lama. Pior ainda, era fazer de Nossa Senhora do Bom Parto sua comadre como madrinha de meu irmão. Noite de lua cheia a criançada ficava olhando para o céu, procurando São Jorge com seu cavalo nas manchas escuras da lua. Quando se formava um temporal, cobriam-se os espelhos e rezava-se para Santa Bárbara. Quando se entrava no mato, se invocava São Bento, protetor das mordidas de cobra. Contava-se que o peixe solha, conhecido vulgarmente por ?soia? ficou com a boca torta por arremedar Nossa Senhora que lhe perguntou sobre a maré. Quem não sabia da fábula do cágado que tentou ir a uma festa no céu, no violão do urubu e caiu num lajedo e Nossa Senhora o emendou. Quem não já deu três pulinhos para São Lunguinha, após achar o objeto perdido. Enfim, essa intimidade inocente com o sagrado, tão bem delineada na literatura de cordel é um exemplo de que cultura, fé e religião não podem se separar enquanto o homem for um ser tipicamente cultural como o é.