Opinião
PRECIOSIDADES
Muitos dos meus domingos são de rasgação de papéis velhos e de descarte de objetos acumulados em pastas e gavetas que quase não aguentam mais tamanha carga, ensejando a reclamação permanente da minha mulher e as piadas constantes do meu filho. E, vez por outra, nessa difícil seleção entre o que vai voltar para os esconderijos do meu gabinete e o que será condenado ao cesto de lixo, deparo-me com pequenas preciosidades que bem justificam os versos de Drummond: ?Mas as coisas lindas/ muito mais que findas/ essas ficarão?. Agora mesmo encontrei, dentre os pertences da minha mãe que vieram para mim depois que ela se foi, um conjunto de pequenos talheres de metal que me foram presenteados por Irene Bilú, logo após o meu nascimento, em maio de 1970. Um mimo singelo, mas que foi guardado por dona Lenira ao longo de quatro décadas como uma verdadeira riqueza, um tesouro de afeto e de consideração. A gentil dedicatória ainda está lá, escrita à mão, testemunhando que a minha chegada a este mundo não passou despercebida, pelo menos não para aquela generosa amiga da minha família, que se deu ao trabalho de vir a Maceió, comprar o brinde e mandar gravar o meu nome em cada uma das peças, demonstração inequívoca de bem-querer. É provável que eu tenha ganhado alguns outros presentes, mas esse foi o único que sobreviveu incólume à passagem do tempo, compondo a pequeníssima herança materna que me coube. Talvez o metal nem seja nobre, eis que já está um pouco azinhavrado, mas isso não tem a menor importância; o que vale é o quanto ele me traz de boas recordações, de lembranças benfazejas, de significados múltiplos. Penso no que seria de nós sem essas coisas que, aos olhos do mundo, pouco ou nada valem, e que, apesar disso (ou por isso mesmo), fazem tanto bem para a nossa alma. Não há explicação para os sentimentos que elas nos suscitam, nem nós estamos em busca de nenhuma, já que o que nos basta é apenas que elas existam e sejam nossas. Porque falam de nós para nós mesmos, a nós que muitas vezes não temos tempo ? ou coragem ? para escutarmos o nosso próprio coração. Porque nos resgatam da autossuficiência a que nos impomos, trazendo de volta a fragilidade que pede colo e aconchego. Porque acordam a sensibilidade que deixamos adormecida nos muitos escaninhos da nossa razão embrutecida. E porque nos levam de volta para o antigo território da pureza e do encantamento, quando não éramos mais do que seres humanos, apenas humílimos seres humanos extasiados diante da imensidão no universo que nos chamava à vida.