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CACARECO E A HIST�RIA

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Em 1959, o Brasil recuperava-se do suicídio de Getúlio Vargas nutrindo uma aversão aos políticos estimulada por setores conservadores da sociedade e parte da imprensa que remava numa maré moralizadora. O prefeito de São Paulo era Ademar de Barros, cujo slogan (?rouba, mas faz?) dizia tudo sobre a sua administração. A Câmara municipal convivia com escândalos periódicos. Estava então armado o cenário para o voto de protesto dos paulistanos na eleição de vereador, e os eleitores resolveram eleger Cacareco. Trazido do Rio de Janeiro para a inauguração do zoológico de São Paulo, o rinoceronte Cacareco, que na verdade era fêmea, foi lançado candidato, com direito a santinhos e campanha. Naquela época, a votação era em cédula de papel. Quando abriram as urnas, Cacareco estava ?eleito? com 100 mil votos. Virou notícia mundial, assunto de debates na ONU e matéria da revista Time. Não tomou posse, foi recambiado para o Rio e morreu pouco depois, esquecido. Foi o mais notável caso de protesto, ou voto nulo, da história política brasileira ? teve outro em 1988, quando a turma do Casseta & Planeta lançou o macaco Tião, também do zoo carioca, que obteve 400 mil votos. A urna eletrônica acabou com esse tipo de manifestação por parte eleitor. Restou a tecla branco, ou a possibilidade de anular o voto digitando o número de um candidato inexistente. Nas eleições deste ano surgiu uma outra alternativa: o eleitor recusou-se ir às urnas. Armou-se, então, o cenário para uma crise que demonstra que nosso sistema está, mais uma vez, aos pandarecos. Influenciado por setores conservadores da sociedade e parte da imprensa que rema numa maré moralizadora, o eleitor acabou por jogar todos os políticos brasileiros na vala comum do descrédito. O total de votos brancos, nulos e abstenções chegou a 32,5% do eleitorado no Brasil e virou notícia mundial. No Rio de Janeiro, o número foi maior que a votação obtida pelo prefeito eleito Marcelo Crivella. Em Maceió, Rui Palmeira teve 60,27% dos votos válidos, enquanto o protesto alcançou 53,45% do total de votos. Traduzindo em números, os que ficaram contra tudo chegou a 182.787 eleitores, os votos do segundo colocado chegaram a 159.542. É bom aqui frisarmos que independentemente de como aja o eleitor a eleição vai ser decidida pelos votos válidos, não há como paralisar o processo. Talvez, exista aí, uma espécie de justificativa do eleitor para consigo mesmo (?não tive nada a ver com isso?), mas se trata de uma atitude inócua, sem resultados práticos. Agindo assim, o cidadão pode contribuir para a eleição de um ?cacareco? da vida. Temos que voltar ao início, esclarecendo que a atividade política não é uma excrescência, que as lições de hoje devem promover a gestação de novos talentos comprometidos com o bem de todos. Ao invés de apenas criticar os ?velhos? políticos, a imprensa, por exemplo, deveria ajudar na redescoberta da arte da política, que moldou a civilização desde os tempos dos gregos. Isso se chama democracia.

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