Opinião
N�O TINHA TETO, N�O TINHA NADA
Nada melhor para arejar um país envelhecido por eternos cancros que um grandioso protesto estudantil. A demonização ou glorificação do movimento, nesses tempos de polarização, deixo a cargo das tendências de cada um, mas é inegável que faces jovens gritando por um ideal são um fetiche incontornável de todas as eras. Milhares de estudantes ocuparam escolas em vários estados, mas o movimento tomou corpo mesmo no Paraná. Lá, nos domínios de Sergio Moro, os secundaristas protestam contra as mudanças no ensino médio. Não é mesmo o tipo de coisa que se deve fazer por decreto. Apesar dos méritos, aqui os meios importam mais que os fins. Se a educação pública for mudar radicalmente a cada 4 anos, a cada nova cabeça no planalto, conseguiremos piorar o que já é péssimo. Os jovens protestam também contra a PEC do teto para os gastos públicos. Aí os adolescentes se meteram em uma enrascada. Não é o tipo de tema que comporte o maniqueísmo típico da idade. Não existem, aqui, os mocinhos e vilões de suas séries favoritas. Contra os estudantes depõem a pior das testemunhas, eles mesmo. No afã de terem sua independência reconhecida e de evitar o rótulo de massa de manobra, logo anunciaram que estavam promovendo estudos e debates com professores sobre a PEC. Quer dizer então que invade primeiro e pergunta depois? Minhas críticas aos estudantes, porém, param por aí. Todo o resto está a seu favor. A permissão para enxergar o mundo de forma mais simplificada lhes é devida. Recusar a imobilização diante de uma intervenção sem diálogo do poder público é um exemplo a ser seguido e, por fim, não lhes podem acusar de prejudicar ninguém além deles mesmos. Bem diferente das greves de servidores e demais movimentos que apoiam a mobilização. Aos adultos não é permitido crer que dinheiro nasce em árvore, que dá pra dar aumento e aposentadoria sem regras para todos. Sem um limite para os gastos públicos o Brasil nunca vai crescer sustentavelmente. Chegou a hora de encarar as escolhas difíceis. Um futuro hospital, num estado que não tinha nenhum, terminou virando um palacete da Justiça, e fingimos que uma coisa não tinha nada a ver com outra. Mais de 70% dos magistrados furam o teto e as escolas não tem nem chão. Vamos continuar não fazendo a conexão? Não vai ser a PEC que vai deixar a saúde pública sucateada, ela sempre esteve. Não tem leito, não tem remédio, não tem nada.