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Opinião

Medo de Graciliano?

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LUIZ GUTEMBERG q Em 1953, ao registrar a morte de Graciliano Ramos, o jornalista Raul Lima escreveu no Diário de Notícias, do Rio, que Julião Tavares ? o vilão do romance Angústia ? havia escrito um artigo na imprensa de Maceió louvando e saudando a obra do romancista. Naturalmente, não se tratava propriamente de Julião Tavares, que já estava morto desde 1936, pois no romance ele é enforcado. Quem escreveu o elogio póstumo a Graciliano foi um cidadão muito conhecido na cidade, tomado por Graciliano como modelo para Julião Tavares. Numa crônica anterior, o mesmo Raul Lima também havia revelado que Julião Tavares havia sido eleito para a Academia Alagoana de Letras. Aliás, estou fazendo a citação apenas para ter uma abonação, mas em Maceió todo mundo sabia quem era Julião Tavares. Não apenas ele, mas quase todo elenco do romance tinha seus modelos conhecidos. Pois é exatamente sobre esses modelos vivos do romance Angústia ? não apenas as pessoas, mas os cenários, usos e costumes da vida real, mas do próprio enredo do romance Angústia ? que vou falar na Academia Alagoana de Letras, na aula inaugural do curso de literatura brasileira, em nível de pós-graduação, uma das grandes realizações do acadêmico Ib Gatto na presidência da instituição. Desde que li o romance, e tinha 16 anos na época, que anoto provas de que se trata menos de ficção e muito mais de um documento, um vigoroso testemunho sobre a vida de um intelectual de classe média em Maceió. No princípio, fiz fichas, hoje tenho um arquivo e cada dia mais enriqueço meu acervo de informações sobre as coincidências entre a realidade e o romance, entre Graciliano e o próprio Luís da Silva, o sofrido e pessimista protagonista, e, finalmente, a gente de Angústia e todos nós, maceioenses. Há coincidências terríveis entre o romance e a biografia de Graciliano, pois ele terminou o romance, em 1935. No mesmo dia em que foi preso, para ser depois mandado ao Recife e deportado para o Rio. As Memórias do Cárcere são uma continuação literal de Angústia. Minha palestra na Academia é uma espécie de prévia para um ensaio que me preparo para escrever e que só espero que não aconteça o mesmo que ocorreu como o prometido ensaio de Sartre sobre Flaubert e Madame Bovary só publicado no fim da sua vida, quando já não podia assumir as polêmicas que suas teses suscitaram. Minha proposta, porém, é para que pesquisadores alagoanos se interessem pelos numerosos filões que estão em Angústia, pontos de partida para refletir e explicar Maceió do século XX, um conjunto de informações que fazem falta para a cidade amada, tão padecida de compreensão sobre seu passado e os fundamentos da sua cultura. Aceitei muito honrado fazer essa apresentação na Academia tanto para exprimir minha devoção por Graciliano, como para propor que adotemos Angústia como o cânone alagoano, conforme a concepção de Harold Bloom, o mestre shakespeareano da Universidade de Yale. (q) É JORNALISTA E ESCRITOR

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