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Patriotas e imperialistas

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EDUARDO BOMFIM q O historiador Paul Kennedy, autor do célebre tratado Ascensão e Queda das Grandes Potências, afirmou em recente entrevista, publicada no ?Estado de São Paulo?, que o mundo já vive um novo contexto geopolítico. De todos os lados, em todos os continentes, por quase todos os países, acontecem gigantescas manifestações contra a intervenção armada dos EUA no Iraque. A instabilidade política e os conflitos aumentam consideravelmente no planeta. Indiferentes aos protestos, os norte-americanos aceleram os preparativos guerreiros. A economia internacional já demonstra sinais de uma provável onda desestabilizadora, cujas conseqüências só podem ser previstas em seus contornos mais gerais. Surgem alterações na ordem unipolar que emergiu após a derrocada do bloco soviético, simbolizada através da queda do muro de Berlim. França, Alemanha, Rússia, China, quatro grandes potências opõem-se à guerra. Países de médio porte como Brasil, Índia também cerram fileiras em defesa da paz. O Vaticano lança-se em campanha ecumênica contra a guerra. O papa João Paulo II convidou o mundo cristão, nesta Quarta-feira de Cinzas, à oração e à ação afirmativa contra o conflito anunciado. E ele é algo assim como se fosse uma obra de realismo fantástico, de Gabriel Garcia Marques. Tão brutal que parece ao mesmo tempo real e inverossímil. A investida imperialista nunca foi tão poderosa em toda a história contemporânea e paradoxalmente, este império jamais encontrou tanta resistência como atualmente. A defesa da paz tornou-se algo concreto. Não se trata de pacifismo abstrato, genérico. Constitui-se em palavra de ação, mobilização, luta. Como instrumento palpável de resistência dos povos, das nações, contra a intervenção, a arrogância, a agressão de uma política belicista que não respeita nada e ninguém. Capaz de ignorar solenemente a comunidade internacional e seus órgãos mais representativos, como a ONU, caso sofram qualquer tipo de veto aos seus intentos de anexar territórios e riquezas. A guerra significará, além de uma imensa carnificina, muito mais pobreza na maioria das nações, impedindo a retomada de tentativas de novas políticas públicas de desenvolvimento com distribuição de renda. Além disso, provocará a intensificação e generalização de conflitos regionais, a exemplo da Colômbia e Venezuela. A tendência seria a globalização da presença militar norte-americana, sempre que os seus interesses venham a ser contestados. E a Amazônia, principalmente a nossa, é prioridade estratégica dos EUA, desde há muito tempo. Assim, defender a paz, confunde-se com o patriotismo nos dias atuais. E nestes tempos dramáticos que exigem altivez e engajamento militante, sempre é bom lembrar o escritor norte-americano Mark Twain, conhecido pelas suas inesquecíveis obras de aventuras mas censurado em seu próprio país pela sua postura contra o imperialismo. É de sua autoria, em ?Patriotas e Imperialistas?, o trecho que segue: ?Oh, Senhor, nosso Deus, ajudai-nos a rasgar a carne dos soldados do inimigo em postas sangrentas com nossas bombas; ajudai-nos a cobrir seus campos alegres com as formas pálidas de seus patriotas mortos, permiti-nos abafar o trovão dos canhões com os feridos retorcendo-se de dor, ajudai-nos a destruir os seus lares humildes com um furacão de fogo; ajudai-nos a arrancar com dor inútil o coração das viúvas inocentes; ajudai-nos a deixá-las sem lar e a vagar, com trapos, fome e sede, na companhia dos filhos pequenos, abandonadas as ruínas de sua terra desolada, enfrentando o calor do sol de verão e os ventos gelados do inverno?. Que o seu protesto, o seu inconformismo, o seu humanismo, a sua denúncia, também sejam nossos. (q) É ADVOGADO

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