Opinião
DA D�VIDA
A dúvida é uma miragem que não se revela. Possui dois polos. O primeiro para quem odeia a verdade; o segundo para quem odeia a mentira. A dúvida é benigna quando esconde uma verdade destruidora. Quando qualquer mentira se torna melhor do que a verdade, a dúvida é o caminho para uma relativa paz. A dúvida tanto pode ser um alento para dor ou um tormento ainda maior. No entanto, a dúvida é muitas vezes inquietante. É através da dúvida que se busca a verdade. Por isso, a fé e a razão são opostas porque entre uma e outra está a dúvida. Diz Descartes que ?a filosofia é o estudo da verdade e a única barreira é Deus?. Isso porque não se vê Deus com a razão, mas com a fé. Assim a Teologia, cujo objeto de estudo é Deus, fundamenta-se na fé das pessoas. Por isso São Francisco nos diz: ?Onde houver dúvida que eu leve a fé?. A dúvida, que não chega a ser uma mentira, não é o antônimo de verdade. Diríamos que entre os benefícios da dúvida está, justamente, a capacidade humana de buscar a verdade. É assim que a ciência trabalha para desvendar mistérios que a natureza impõe ao homem. E este, por conseguinte, vive e morre quase sempre com alguma dúvida não resolvida. A última delas é exatamente a existência de vida após a morte, o inferno e o céu. Assim o homem que vive pela fé sublima toda a sua dúvida e não faz questionamento de ordem teológica. Talvez por isso a lição de Aristóteles sobre a dúvida não se enquadre neste perfil, quando diz: ?O ignorante afirma, o sábio duvida e o sensato reflete?. Como a dúvida é sempre a favor do réu, também nem sempre o culpado é castigado, embora a dúvida permaneça. Outra dúvida, porém, sobre o mesmo réu, poderá condená-lo. Jack ? o estripador é apenas um pseudônimo de um assassino em série, que mais de um século depois ainda não se conhece sua verdadeira identidade. Conclui-se que, além de matar suas vítimas sempre num mesmo ritual, Jack deveria se deleitar com seu anonimato. E mais ainda vendo a cada dia pairar dúvidas sobre tantos outros. No aspecto pragmático, a dúvida nem sempre corrobora com o pensamento filosófico. Um exemplo disso é que a dúvida e não a certeza que faz um candidato menos aceito nas pesquisa tentar ganhar uma eleição. Sua certeza gira em torno da dúvida do eleitorado. E acreditar na dúvida de outrem para escolher um candidato significa postergar o adversário. A diferença é que durante o sufrágio, quando o eleitor duvida dos dois, vota nulo ou em branco. É melhor confiar no provérbio popular que diz: ?Urna e fralda de bebê, você só tem certeza quando abre?.