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A FATIA DE CULPA DE CADA UM

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O dicionário Oxford escolheu o termo pós-verdade (post-truth) como a palavra do ano. Ela sintetiza uma força devastadora, um tsunami social, que vem assolando o mundo. São notícias mentirosas que brotam e se espalham como vírus, confundindo a visão das pessoas e interferindo em decisões essenciais, como o Brexit. Claro que a mentira não foi inventada no século XXI, muito menos na política, mas estamos diante de outra coisa agora, algo muito mais perigoso. Antes, os fatos inverídicos vinham da boca de candidatos e autoridades, dos quais o povo sempre soube, ao menos minimamente, que deveria desconfiar. Agora, eles vêm de amigos e parentes, que recebem pelo Whatsapp e Facebook noticiais escancaradamente inventadas e as espalham, o que as torna muito mais convincentes, pois nosso cérebro tem a tendência natural de confiar em pessoas conhecidas. O ápice desse descalabro ficou conhecido como pizzagate. Do dia pra noite, na reta final das eleições americanas, o dono de uma pizzaria, James Afelantis, e seus 40 funcionários, começaram a receber insultos e ameaças de morte pelas redes sociais. Com medo e sem entender o que acontecia, pediram ajuda ao FBI. Os investigadores descobriram que uma notícia falsa havia se disseminado na rede alegando que figurões de Washington, incluindo a própria Hillary Clinton, se encontravam nos fundos da pizzaria para praticar abuso sexual contra crianças. Os posts traziam a foto de 2 crianças que teriam sido molestadas, eram os filhos de Afelantis. Por que alguém compartilharia uma barbaridade dessa? Por duas razões. Primeiro, porque quer acreditar. Essa é a essência do mundo pós-verdade. Quando o conteúdo se alinha com nossas convicções e desejos, aceitamos divulgar sem contestação. Quando é algo que nos atinge, diferentemente, corremos para verificar, o que em geral é muito fácil e não demora mais do que alguns segundos. A segunda causa é ainda não termos entendido que o pai das mentiras não é só quem as redigiu, mas também todos aqueles que a disseminaram. Se alguém lhe oferecesse cartazes divulgando o abuso de menores atrás do mercadinho da esquina, você sairia por aí colando nos postes sem antes verificar o fato? Pois é isso que fazemos ao compartilhar coisas na internet sem checar. Ou mudamos rapidamente nosso comportamento ou poderá ser um de nós o próximo Afelantis.

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