Opinião
NANICOS MORAIS
No bom todo mundo é bom, repetia o velho Luiz Sarmento em suas longas conversas com minha avó Izarele. Com efeito, se você quer saber se alguém é seu amigo de verdade, procure-o quando as coisas ficarem difíceis ou quando as forças do poder se unirem em seu desfavor. Logo verá os poucos que realmente se dispõem a lhe estender a mão solidária, e talvez se surpreenda com o grande número dos que lhe darão as costas, dos que mudarão de calçada para não cruzar consigo e dos que farão de conta que sequer lhe conhecem direito. Tal como Pedro, que negou Cristo três vezes, muitos jurarão de pés juntos jamais terem estado ao seu lado, nunca haverem sentado à sua mesa e nem terem trocado mais do que meia dúzia de palavras em toda uma vida. Nunca foram seus amigos mesmo, dirão aos desafetos que querem a sua desdita; eram apenas meros conhecidos, nada mais do que isso. A pusilanimidade dos que mudam de lado ao sabor dos seus próprios interesses é uma das facetas mais mesquinhas do ser humano, com a qual não consigo nunca me acostumar. Abomino os covardes que mentem descaradamente na sua presença e que, passada a primeira curva da rua, logo se põem a atuar em seu desfavor. Despossuídos da coragem de dizer as coisas às claras, atuam na surdina, à sorrelfa, quais fantasmas que se esgueiram pelas sombras, vermes abjetos que rastejam pelas sarjetas da podridão moral. O mundo está cheio desses inquilinos desprezíveis, gente da pior espécie, verdadeiros nanicos sem caráter nem honra. Maltratam os nossos ouvidos com os seus discursos vazios e com o seu palavreado oco, incomodam-nos com a sua presença asquerosa, com os seus cacoetes ridículos, com a inutilidade do seu estar na terra. Esses indivíduos, o que é pior, ainda se julgam muito espertalhões, fazendo de si mesmos a imagem de grandes estrategistas, quando não passam de imensos babacas, bobos da corte que servem apenas para fazer o imperador rir. Os poderosos os mantêm por perto, porque necessitam de quem lhes realize os serviços mais sujos, mas não depositam neles nenhuma confiança, já que sabem da sua falta de escrúpulos. Nem importa que ocupem altos cargos ou que sigam carreiras socialmente relevantes, pois nenhum galardão tem valor quando o homem que o ostenta é indigno de o possuir ? às vezes nem homem é, no sentido exato do termo. Aprendi em Murici que, mais cedo ou mais tarde, as víboras sempre hão de querer inocular-nos o seu veneno; é da sua natureza peçonhenta. Resta-nos ficar atentos, e esmagar a sua cabeça logo no primeiro bote, cortando o mal pela raiz.