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Opinião

AOS QUE GOSTAM DE GENTE

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?A melhor maneira de captar a ideia central de uma época talvez não seja se concentrando nas características explícitas que definem seus edifícios sociais e ideológicos, mas sim nos fantasmas renegados que a assombram, que habitam uma região misteriosa de entes não existentes que, no entanto, persistem e continuam a ser eficazes.? (Slavoj ?i?ek, em O Absoluto Frágil, p. 30). Estamos celebrando hoje, 10 de Dezembro, os 68 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Nestes tempos temerosos de ascensão da política do ódio, com o recrudescimento de todas as matizes do fundamentalismo religioso, da expansão das redes de intolerância e de preconceito, são justamente os Direitos Humanos, aquilo a que Bobbio chamou a inspiração para o futuro, o fantasma renegado, o espectro que assombra a sociedade brasileira. Nessa época em que o espiral do silêncio, expressão peculiar da cientista política Elisabeth Noelle-Neuman, sincroniza todos os meios em um discurso quase uníssono da negação dos direitos e da propagação da mixofobia ? o medo de se misturar aos outros ? querendo fechar o universo possível de reações dissidentes e pretendendo aniquilar as vozes contrárias, são os que gostam de gente, os militantes de direitos humanos, os alvos preferenciais dessa epidemia pestilenta de ódio em estado bruto. É preciso, portanto, nesse dia de celebração à Declaração Universal dos Direitos Humanos, reverenciar aqueles e aquelas que gostam de gente. Pessoas que dedicam o melhor da sua vida e, não raro com o martírio da sua própria vida, a cuidar e proteger amorosamente os direitos de outras pessoas. Os direitos de gente que sofrem na pele o açoite do preconceito, gente que luta bravamente contra as doenças raras, gente submetida ao flagelo da tortura, ao abandono das ruas, gente que sofre a dor inominável de enterrar seus filhos vítimas da violência, gente que morre pelas mãos do machismo e da homofobia, gente igual à gente, mas absolutamente invisíveis. Reverencio todas essas pessoas que gostam de gente, recordando o meu mentor, o meu espelho: Padre Silvestre, que dedicou toda a sua vida a gostar de gente. gente da Vila Aratu, gente do Ouricuri, os meninos e meninas do projeto Santa Rita, enfim aos empobrecidos, os prediletos do Reino de Deus.

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